LOUCAS, SANTAS OU PROSTITUTAS: O APAGAR DAS MULHERES NA HISTÓRIA

Postado por Felipe Toledo

 RESUMO

 Esta pesquisa procura refletir sobre o persistente silenciamento das mulheres na história, apesar de todos os avanços obtidos com os estudos sobre as mulheres. O objetivo deste estudo consiste em apontar o fato de que as mulheres ainda são silenciadas pela história ou são retratadas como figuras estereotipadas, polarizadas e destituídas de historicidade, o que ocasiona o seu apagamento como sujeito histórico. Para dar subsídio a este artigo, realizou-se uma pesquisa bibliográfica tendo como contribuição as autoras Del Priore (1994), Perrot (2005), Rago (1995), Soihet (1997), Scott (1992), dentre outras. Buscou-se demonstrar o percurso da escrita sobre as mulheres na história, os avanços obtidos e as formas usadas para o apagamento das mulheres na história. Concluiu-se que houve grandes avanços na pesquisa sobre as mulheres, principalmente após a década de 1960, com o auxílio do movimento feminista, com progressos na abordagem e na metodologia, porém, tal avanço ainda não fez com que as mulheres passassem a ser incluídas na história, persistindo o relato sobre as mulheres como acessório ou mesmo obscurecido e estereotipado.

 Palavras-chave: História. História das mulheres. Silenciamento. 

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 Introdução

 Trata a presente pesquisa sobre o apagamento das mulheres na história dita oficial, a despeito dos inegáveis avanços obtidos com os estudos sobre as mulheres a partir, principalmente, da segunda metade do séc. XX.

Questiona-se sobre as formas que foram utilizadas pelos historiadores, em sua maioria homens, para que este apagamento fosse efetivado, a saber: teriam as mulheres apenas desempenhado o papel de loucas, santas ou prostitutas na história?

Decorridas algumas décadas desde que houve um olhar sobre a mulher como objeto de estudo e como sujeito histórico, chega-se a conclusão de que as mulheres têm sim uma história e de que não são apenas destinadas à reprodução (santas) ou à diversão (prostitutas), razão pela qual se faz tão urgente que mais e mais trabalhos e pesquisas sejam realizados, pois persiste este apagamento na história até os dias atuais.

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É o que nos diz Michelle Perrot quando afirma:

 Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, "esqueceu" as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento. (PERROT, 2005, p. 9)

 Para tanto, faz-se necessário, segundo Mary Del Priore (1994, p. 11), “romper com a silenciosa paisagem dos estereótipos femininos, fundada na negação dos papéis históricos representados por mulheres [...].”

O objetivo deste trabalho não é outro senão o de trazer a lume o fato de que as mulheres ainda são apagadas da história oficial ou, quando mencionadas, são retratadas por meio de estereótipos incapazes de dar conta da sua condição enquanto sujeito histórico.

Para tal intento, será utilizada como recurso metodológico a pesquisa bibliográfica, realizada a partir da análise de obras já publicadas, tais como: livros, artigos científicos etc.

Ademais, o presente trabalho não seria possível sem a vasta literatura já publicada sobre o silenciamento das mulheres na história, dentre as quais citamos: Del Priore (1994), Perrot (2005), Rago (1995), Soihet (1997), Scott (1992), dentre outras.

 Desenvolvimento

 As mulheres foram postas fora da história por muitos séculos, relegadas à obscuridade, como se não existissem enquanto sujeitos aptos a ter e a fazer a história. Segundo Perrot (2007, p. 16) como se “[...] estivessem fora do tempo, ou pelo menos, fora do acontecimento”.

A história são os fatos, as mudanças, as grandes revoluções, os atos individuais ou coletivos, mas também a história é o registro que se faz desses acontecimentos, pode-se dizer, então, que tudo é história (PERROT, 2007). Porém, se tudo é história onde estavam as mulheres que não constavam/constam no registro histórico?

Confinadas em casa, as mulheres tinham como destino o espaço privado, os cuidados com a casa e com a família, não sendo vistas no espaço público, único campo de interesse a merecer o relato histórico no alvorecer da história do séc. XIX.

A história enquanto disciplina científica se firmou no séc. XIX, com a prevalência, neste momento, da abordagem política por meio da memória das Nações, dos feitos dos heróis, dos grandes acontecimentos que diziam respeito, por sua natureza, a acontecimentos públicos.

Esse discurso historiográfico se estrutura para pensar o sujeito universal, apesar de ter como referência única os sujeitos masculinos. A história, então, nos conta apenas sobre os homens e seus grandes feitos, a mulher figurando apenas como ser marginal nas narrativas históricas, isso quando mencionadas. (RAGO, 1995).

Mas não se pode dizer que todos os autores do início do séc. XIX silenciaram sobre as mulheres, pois em sua obra “La Femme” de 1859 Michelet compreende o movimento da história como resultante da relação entre os sexos, sem, contudo, deixar de marcar a diferença mulher/natureza e homem/cultura. Ressaltou, no entanto, que à medida que a mulher buscasse atuação fora do âmbito privado viria a provocar o desequilíbrio da história. (DEL PRIORE, 1994).

Somente na década de 1930, com o surgimento da Escola dos Annales, é que houve uma ruptura no fazer historiográfico, com a mudança da característica principal de narrar apenas os eventos políticos, herança da história positivista, para focar sua atenção nos planos sociais e econômicos, porém sem incluir, nesse primeiro momento, a dimensão sexual como objeto de preocupação.

No entanto, para Rachel Soihet os Annales:

 Buscam desvencilhar a historiografia de idealidades abstratas, direcionando seu interesse para a história de seres vivos, concretos, e à trama de seu cotidiano, em vez de se ater a uma racionalidade universal. Embora as mulheres não fossem logo incorporadas à historiografia pelos Annales, estes contribuíram para que isto se concretizasse nas décadas seguintes. (SOIHET, 1997, p. 98)

 Para Del Priore (1994) foi somente nos anos 1970, com a terceira geração dos Annales, a chamada Nouvelle Historie, que houve a inclusão de estudos voltados para a questão da família e da sexualidade, e com a História das Mentalidades, voltada para a pesquisa sobre o popular, inaugurou-se uma conjuntura mais aberta para pesquisar e falar sobre a mulher.

Livro: O Que é História das Mentalidades - Cláudia Otoni de Almeida Marotta  | Estante Virtual

Já o marxismo considerou a questão das mulheres como secundária, entendendo que tão logo se resolvesse a contradição principal da luta de classes, com a instauração de uma sociedade sem classes, seria também resolvida a questão feminina, não se justificando uma maior atenção a essa outra contradição. (SOIHET, 1997).

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Destaca-se o papel assumido pela história social, que se tornou um importante instrumento para a história das mulheres, segundo pontua Joan Scott:

 

A existência do campo relativamente novo da história social [...] pluralizou os objetos da investigação histórica, admitindo a grupos sociais como camponeses, operários, professores e escravos uma condição de sujeitos históricos. Nesse contexto, os historiadores das mulheres poderiam apontar para a realidade da experiência vivida pelas mulheres e presumir seu interesse inerente e sua importância. (SCOTT, 1992, p. 81)

 

Na historiografia brasileira, foi a partir da década de 1970 que sociólogas, antropólogas e historiadoras, tendo como referência teórica a história social marcada pelo marxismo, buscaram pistas sobre a vida cotidiana das mulheres no contexto social, procurando identificar a opressão sobre as mulheres. (RAGO, 1995).

Todavia, Margareth Rago (1995) aponta que é ao longo da década de 1980, por meio de uma segunda vertente de produções acadêmicas sobre as mulheres, que surgem estudos dedicados às mulheres como sujeitos atuantes na vida social, com enfoque nas mais diversas formas de resistência tanto à dominação masculina como classista. Nesse momento, a atuação das mulheres passa a contar no registro historiográfico como sendo elas sujeitos históricos. 

Em Del Priore (1994, p. 13):

 A história da mulher, que tornou visível o que estava esquecido ou mesmo desaparecido, tem no Brasil suas pioneiras. Miriam Moreira Leite, Maria Odila Silva Dias e Maria Beatriz Nizza da Silva marcaram a produção historiográfica com trabalhos notáveis e o ineditismo das fontes com que lidaram. A iconografia e a fotografia, os relatos de viajantes estrangeiros, os processos civis e criminais, a tradição oral, a documentação eclesiástica foram por estas brilhantes autoras diagnosticados e interpretados [...].

 Surgiram, nessa trilha, trabalhos importantes sobre a participação das mulheres no mundo do trabalho nas fábricas do século XIX e começo do XX, sobre a resistência das mulheres pobres ao longo do século XIX, sobre a resistência das operárias, sobre a prostituição e discurso médico e tantos outros. Esses estudos tiveram a importante função de fomentar o debate e contribuir para o desenvolvimento da história das mulheres no Brasil.

Todas essas transformações na historiografia, tendo como aliado à explosão do movimento feminista a partir da década de 1960, tiveram papel decisivo para alçar as mulheres à condição de objeto e sujeito histórico.

Aliás, foi o movimento feminista que fez o alerta para a ausência das mulheres na história, antes mesmo das historiadoras, preparando o terreno para que fizessem uma história voltada para as mulheres no sentido de incluí-las como objetos e sujeitos históricos. (DEL PRIORE, 2001).

Desde que o movimento feminista e as pesquisadoras das mais variadas áreas se dedicaram a resgatar as mulheres do silêncio imposto durante séculos, é notório o avanço do campo de pesquisas que volta sua atenção às mulheres, além da constante evolução dos métodos e adoção de diferentes abordagens.

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Nesse momento, conforme Perrot (1995, p. 20) “tratava-se inicialmente de tornar visível o que estava escondido, de reencontrar traços e de se questionar sobre as razões do silêncio que envolvia as mulheres enquanto sujeitos da história”.

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Tais estudos possibilitaram, ademais, o questionamento do próprio fazer histórico, uma vez que a história tendo apenas retratado o sujeito universal, personificado na figura masculina, mostrava-se incompleta, com um olhar parcial sobre o passado.

E como bem ressalva Perrot (2005, p. 14) “É o olhar que faz a história”. É quando são pinçados do passado que os eventos históricos e seus agentes ganham vida. Mas no que se refere às mulheres essa ânsia por dar vida foi por muito tempo negligenciada e mesmo já tendo decorrido algumas décadas desde que o movimento feminista e as pesquisas resgataram as mulheres das sombras ainda testemunhamos uma história parcial.

Tal apagamento das mulheres se deu e se dá em várias dimensões, tanto no nível dos próprios acontecimentos e, caso tenham participado, na não menção nos registros históricos e, mesmo constando nos registros, na ausência do relato histórico ou no relato de forma estereotipada.

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O apagamento no nível dos acontecimentos já o mencionamos alhures, quando relatamos que por estarem as mulheres adstritas ao ambiente privado não participavam dos acontecimentos. Evidente que muitas mulheres, mesmo com essa barreira imposta, contribuíram para as mudanças históricas. Também há a ressalva de que foram os homens que demarcaram que somente os eventos políticos e militares, externos por excelência, contavam como história.

Quanto aos registros, devemos nos atentar que para escrever a história são demandadas fontes, vestígios, documentos e, no que respeita às mulheres, encontrar esses vestígios se mostrava/mostra uma tarefa penosa, pois a presença feminina era/é com frequência apagada, direta ou indiretamente, seus arquivos destruídos. Outra razão das mulheres não constarem nos registros é a problemática da gramática, que mistura os gêneros e usa o masculino no plural dissimulando a presença feminina nos variados processos históricos. Também pelo casamento as mulheres somem dos registros ao perderem seu sobrenome, passando a adotar o patronímico do marido. (PERROT, 2007).

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Outro exemplo de apagamento das mulheres, este mais contemporâneo, é o das estatísticas, pelo fato das estatísticas serem assexuadas na maior parte das vezes, enumeram as diversas modalidades de trabalhadores que se presume serem do sexo masculino e assim as mulheres não são recenseadas, razão pela qual seu trabalho é confundido com atividades domésticas e auxiliares. (PERROT, 2005).

Todos esses mecanismos se tornaram uma sofisticada tecnologia de apagamento das mulheres, visto que atuam em diversas frentes. Conforme Perrot (2005, p. 12) “[...] a matéria que constitui as fontes integra a desigualdade sexual e a marginalização ou desvalorização das atividades femininas”.

Mas a falta de relato se mostra como uma das formas mais intensas de se apagar as mulheres da história, pois não foi suficiente que as historiadoras demonstrassem que as mulheres possuíram uma história ou que participaram dos acontecimentos históricos, contribuindo com as mudanças principais do ocidente. Apesar de uma consideração inicial, grande parte dos historiadores não feministas rejeitou a história das mulheres ou a deslocou para um domínio separado, como se dissessem que as mulheres têm uma história menos importante do que a dos homens e que cabe as feministas fazerem essa história. Já em relação às mulheres terem participado dos processos históricos, a reação foi de um reduzido interesse, pois o entendimento de um determinado fato como a Revolução Francesa não foi alterado pela participação das mulheres. (SCOTT, 2019).

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Assim, apesar de todas as pesquisas já desenvolvidas, a história que ainda prevalece é a dos impérios e dos grandes heróis, em que não há lugar para as mulheres, sendo impregnada de ideologias e interesses de quem a produz ou de quem a registra. Por isso, Scott (1992, p. 77) defende que “reivindicar a importância das mulheres na história significa necessariamente ir contra as definições de história e seus agentes já estabelecidos como ‘verdadeiros’[...]”.

Scott (1992, p. 95) ainda arremata:

 Os historiadores das mulheres constantemente se deparam protestando contra as tentativas de relegá-los a posições que são meramente estranhas; também resistem aos argumentos que põem de lado o que eles fazem como sendo tão diferente que não pode ser qualificado de história.

 Neste ponto, ressalta-se que o apagamento das mulheres na história também se dá quando são mostradas apenas de forma estereotipada, em especial na figura de santas ou prostitutas ou ainda na figura de loucas ou histéricas.

Essa forma de representação do feminino indica que às mulheres apenas são reservados papéis demarcados e maniqueístas, “sendo em determinados momentos um ser frágil, vitimizado e santo, e, em outros, uma mulher forte, perigosa e pecadora”. (FOLLADOR, 2009, p.9).

Mas se por um lado faltam informações concretas e circunstanciadas sobre as mulheres por outro há uma abundância de discursos e de imagens, que por serem produzidas em sua maioria por homens, dizem-nos mais sobre a visão dos homens sobre as mulheres do que a representação real, ou seja, as mulheres são mais imaginadas e representadas do que descritas ou contadas. (PERROT, 2007).

Poder-se-ia dizer que tal forma de abordagem sobre as mulheres faz parte do passado, que com a prolífica produção das historiadoras feministas as mulheres passaram a constar nos relatos históricos como sujeitos históricos, porém, conforme já demonstramos acima, não é isto que se tem presenciado nos mais diversos relatos históricos, vejamos em Fausto (1995, pág. 121) “O príncipe Dom João, que regia o reino desde 1792, quando sua mãe Dona Maria foi declarada louca [...]”.

Não se está aqui a discutir o fato de a monarca Maria I ter tido ou não problemas de saúde, mas o fato de somente constar nos relatos históricos essa informação a seu respeito, não sendo este fato problematizado e nem dada qualquer outra informação sobre o seu governo, como se toda a sua experiência se resumisse ao fato de ter sido a “louca”.

Vejamos outra passagem de Fausto (1995, pág. 235), desta vez a se referir a outra personagem, “Por morte de Dom Pedro, subiria ao trono a Princesa Isabel, cujo marido – o Conde d’Eu – era francês e, no mínimo, uma personalidade muito discutível”.

Novamente nesta passagem pode-se notar que não há muita preocupação em dotar a personagem feminina de historicidade, apesar de se tratar de uma princesa com possibilidade de se tornar Imperatriz do Brasil, já que é a história política “a que mais importa”, preferiu o autor tão somente atrelá-la a figura do marido e este sim mereceu uma informação a respeito de si.

Vejamos a lição de Silva (2009, p. 58) “[...] a participação feminina nos processos históricos é simplesmente ignorada ou a mulher é tratada de modo acessório e episódico [...]”.

Outra autora que também ilustra esse pensamento é Perrot (2005, p. 11):

 

[...] fala-se pouco delas e ainda menos caso quem faça o relato seja um homem que se acomoda com uma costumeira ausência, serve-se de um masculino universal, de estereótipos globalizantes, ou da suposta unicidade de um gênero: A MULHER.[...] fazer a sua história é, antes, de tudo, inevitavelmente, chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar [...].

Infelizmente chega-se a triste constatação de que em muitos livros de História não são apresentadas nem as mulheres que tiveram destaque na história. Para a autora Montserrat Moreno (1999, p. 50) “a narração histórica não é imparcial, como também não o é a narração de um fato observado na atualidade, mas reflete o ponto de vista de quem o narra”.

Assim, apesar de todos os avanços obtidos no campo historiográfico, incluindo os avanços para o relato sobre as mulheres, a história continua sendo não uma narrativa sobre o passado, mas um discurso sobre este, mostrando o olhar daquele que narra e faz recortes em sua maneira de ser e estar no mundo (RAGO, 1995). E, nesse sentido, desnecessário mencionar que muito do fazer histórico ainda prevalece um campo de domínio masculino.

Justamente por isso a história das mulheres representa uma “ameaça” à história oficial, pois as mulheres não podem ser adicionadas à história sem que obrigatoriamente sejam revistos os termos e padrões remanescentes de uma história objetiva, neutra e universal, história essa que tem em seu âmago a exclusão das mulheres. (SCOTT, 1992).

Deste modo, mesmo com a inegável evolução nos estudos históricos, em que as mulheres passaram a ser vistas como objetos de estudo, e com o surgimento de novas abordagens e metodologias, as mulheres ainda são silenciadas pela narrativa histórica, embora participantes dos processos históricos.

 Conclusão

 A história nasceu como disciplina no século XIX, mas neste momento as mulheres não figuraram como objeto de estudo, pois como seres “reclusas” ao ambiente doméstico não foram julgadas aptas a terem produzido uma história que merecesse um relato.

Mesmo quando da ocorrência de avanços na historiografia, a exemplo da Escola dos Annales, as mulheres também não foram tidas como relevantes, apenas em um momento posterior os avanços da Escola possibilitaram um olhar mais apurado para a história das mulheres.

Foi na década de 1960, com o impulso do movimento feminista e com os avanços promovidos pelos Annales, que as pesquisas sobre as mulheres prosperaram, surgiram novas formas de abordagem, novas metodologias, as quais possibilitaram a coleta de registros femininos nas mais diversas fontes, tais como diários, cartas, processos judiciais, literatura etc.

Mas a despeito de todos os resultados oriundos desses esforços, a história das mulheres continuou como acessória, sendo ainda a história do sujeito universal considerada toda a história, aquela que faz o relato do que realmente importa, mesmo que isso tenha como consequência o questionamento da credibilidade do saber histórico, haja vista que considerar a história dessa forma é dotá-la de um relato parcial e incompleto sobre o passado.

Não é por outra razão que se faz tão necessário reivindicar que as mulheres sejam de fato incluídas na história, pois uma história que não leva em consideração a historicidade de metade da humanidade ou a leva de forma deturpada não pode se considerar como conhecimento científico, não passando de mera narrativa ficcional.

Um dos papéis da história é fazer existir o que está esquecido, mas se uma parcela considerável da sociedade está silenciada ou deformada em relatos estereotipados, como podemos compreender os diferentes aspectos da sociedade e da cultura?

É inegável que houve um avanço na inclusão das mulheres na história, contudo há muito trabalho ainda a ser feito, muito ainda se tem que reivindicar, são muitos os espaços que as mulheres precisam ocupar e a narrativa histórica certamente é um deles, pois os sentidos da história precisam ser revistos para que o presente e o futuro possa contemplar aquelas que estiveram sempre esquecidas e à margem do relato histórico, mas certamente muito ativas no fazer histórico. 

 

REFERÊNCIAS

 DEL PRIORE, M. História das mulheres: as vozes do silêncio. In: FREITAS, M. C. (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2001.

______. A mulher na história do Brasil. São Paulo: Contexto, 1994.

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1995.

FOLLADOR. K. J. A mulher na visão do patriarcado brasileiro: uma herança ocidental. Disponível em: https://www.academia.edu/3784126/A_mulher_no_patriarcado_brasileiro. Acesso: 6 out. 2020.

MORENO, M. Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola. Campinas: Moderna,

1999.

PERROT, M. As mulheres ou os silêncios da história. São Paulo: EDUSC, 2005.

______. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.

______. Escrever uma história das mulheres: relato de uma experiência. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1733. Acesso: 2 set. 2020.

RAGO, M. As mulheres na historiografia brasileira. Disponível em: https://historiacultural.mpbnet.com.br/artigos.genero/margareth/RAGO_Margareth-as_mulheres_na_historiografia_brasileira.pdf. Acesso: 23 set. 2020.

SCOTT, J. W. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. In: BUARQUE DE HOLLANDA, H. (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

______. História das Mulheres. In: BURKE, P. (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora Unesp, 1992.

SILVA, G. V. Prisioneiras do esquecimento: a representação das mulheres nos livros didáticos de história. Disponível em: periodicos.ufes.br/dimensoes/article/download/2509/2005/0. Acesso: 20 ago. 2020.

 SOIHET, R. História, mulheres, gênero: contribuições para um debate. In: AGUIAR, N. (org.). Gênero e ciências humanas: desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.

 

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