A CONSTRUÇÃO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO NA OBRA OS SERTÕES
Postado por Felipe Toledo
RESUMO
A obra “Os Sertões” é muita estudada à luz dos estudos literários, há uma necessidade de retomada, pois se tornou um clássico da literatura brasileira e simultaneamente, traz registros de um acontecimento real que teve grande repercussão nacional, a Guerra de Canudos. Este trabalho tem como objeto o personagem Antônio Conselheiro, da obra Os sertões do autor Euclides da Cunha, e tem como objetivo analisar sua construção, na narrativa. Para isso será necessário levar em consideração os aspectos físicos, psicológicos e comportamentais do personagem em estudo. Os Sertões é uma narrativa baseada em fatos, com isso surge a necessidade de averiguar aspectos utilizados por Cunha no que diz respeito à figura de Antônio Conselheiro como personagem principal da narrativa. A pesquisa está embasada em textos de Massaud (1984), Candido (2014), Abreu (1963), Franco Júnior (2009), Freitas (2010), dentre outros autores. A metodologia da pesquisa caracteriza-se como do tipo bibliográfica.
Palavras-chave: Os Sertões. Antônio Conselheiro. Euclides da Cunha.

A partir deste estudo surgiu a curiosidade de analisar o retrato de Antônio Conselheiro, na obra Os Sertões. Antônio Conselheiro, personagem principal do enredo, liderou vinte e cinco mil pessoas, durante a Guerra de Canudos, fato acontecido no ano de 1896. Ao longo da narrativa Cunha descreve a figura de Antônio Conselheiro incansavelmente. Considerando isso, surge à necessidade de estudar os aspectos físicos, psicológicos e comportamentais de Antônio Conselheiro, vale ressaltar que sentimos a necessidade de estudar, enquanto personagem, à luz da literatura. O aparecimento desta pesquisa teve apoio teórico de autores que têm pesquisas e experiências com análise de personagens e com a obra que está o objeto de estudo que norteia este trabalho. Autores como Candido (2014) nos trazem esclarecimentos sobre a personagem, além de trazer a importância deste no desenvolvimento do enredo. Massaud (1984) que esclarece a classificação da obra, e Abreu (1963), que será de fundamental importância para entender a estilística de Euclides. A metodologia adotada é de cunho bibliográfico.
A pesquisa é bastante relevante para a área da literatura e história, pois fará um estudo utilizando um clássico da literatura, no caso a obra Os sertões, que traz relatos de Antônio Vicente Mendes Maciel (Antônio Conselheiro), figura oriunda do sertão cearense, sergipano, pernambucano e baiano que ganhou repercussão nacional por liderar a guerra de Canudos. Através da escrita de Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro é eternizado na literatura brasileira e transformado em personagem principal de Os Sertões.
Desenvolvimento
Em Os Sertões, o conflito dramático se estabelece entre dois grupos. Em um grupo temos os jagunços e os fiéis sob a liderança de Antônio Conselheiro (este grupo não estava de acordo com a República). Em outro o exército, liderado pelo presidente da República, Prudente de Morais (que não concordava com o grupo, chamado de fanático, religioso). O grupo messiânico estava sonegando impostos, e tinham a república como anticristo. Podemos traçar as características desses grupos sociais, para uma assimilação do conflito dramático (Quadro 1).
Quadro 1 – Grupos sociais envolvidos no conflito dramático
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Características |
Exército |
Jagunços/ fiéis |
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Líder |
Presidente Prudente de Morais |
Antônio Conselheiro |
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Desejo |
Submissão dos jagunços |
Não serem submissos a república |
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Classe social |
Prestígio social |
Classe estigmatizada |
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Índole |
Empregados da república |
Acusados de saqueadores de cidades, gente sem trabalho. |
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Ações |
Lutam contra os jagunços e são derrotados em 3 expedições da tropa. Insistem e na quarta derrotam. |
Lutam contra o exército, vencem em 3 expedições, mas são exterminados, na quarta. |
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Tipos de pessoas |
Homens do exército/ sertanejos |
Todas as idades, todos os tipos, todas as etnias. Cunha (2018, p. 152) |
Fonte: Cunha (2018)
A partir dos pormenores estabelecidos entre os dois grupos, notam-se contrates suficientes para a construção e identificação do conflito dramático. A partir desta identificação, podemos classificar Os Sertões como uma obra literária, mais precisamente uma narrativa. É pertinente identificar o seu conflito dramático para uma estudo mais aguçado do personagem principal, segundo Franco Junior:
A identificação do conflito dramático é, no entanto, fundamental para que se possa estabelecer um estudo detalhado da narrativa na qual ele se manifesta – o que já se apresenta como uma pista metodológica: identificá-lo, voltar a ele quantas vezes for necessário para pensar a história narrada pelo texto que se está analisando, notar que a partir e/ou em torno dele circula uma série de elementos que são passíveis de decomposição pela análise descritiva e passiveis de união – operada sempre com algum distanciamento crítico – pela análise interpretativa. (FRANCO JUNIOR 2009, p. 34).
Assim teremos o conflito dramático como uma das ferramentas que contribuirá de modo relevante para abordar o objeto em estudo, ou seja, fazer a análise da construção do personagem Antônio Conselheiro.
Vale destacar que as obras literárias são classificadas em gênero, para a classificação as especificidades estruturais compositivas e estilísticas. Um desses gêneros é o narrativo, tipo textual utilizado nesta pesquisa. Numa narrativa encontram-se: enredo, tempo, espaço, narrador e personagem. A narrativa geralmente conta uma história, que pode ser real ou imaginária. Para Candido (2014, p. 29), “A ficção ou a mimese reveste-se de tal forma que superpõe a realidade”. Em outras palavras, mesmo que a narrativa seja de uma história real, a forma, como é declarada, ultrapassa os aspectos de uma história real, e sendo ficcional ultrapassa os aspectos reais.
Antes de qualquer devaneio, esclarecer o vocábulo personagem é necessário. Conforme Silva (2008), atualmente a palavra significa um dos elementos da narrativa, mas até o final do século XVIII, na França, significava máscara de ator, rosto ou figura, essa palavra era utilizada para significar atores teatrais. Os personagens são peças-chaves em uma narrativa, o papel da personagem é essencial para a sucessão dos fatos e até mesmo para o surgimento dos conflitos dramáticos. Impossível terminar de ler uma narrativa e não lembrar os pequenos fragmentos que possibilitem a recordação do enredo e principalmente algumas ações dos personagens, pelo menos dos principais. As personagens sustentam a história e são de total relevância e se diferenciam de pessoas reais por alguns aspectos.
As personagens têm maior coerência do que as pessoas reais [...] maior exemplaridade [...] maior significação; e paradoxalmente, também maior riqueza _ não por serem mais ricas do que as pessoas reais, e sim em virtude da concentração, seleção, densidade e estilização do contexto imaginário, que reúne os fios dispersos e esfarrapados da realidade num padrão firme e consistente. (CANDIDO, 2014, p. 26)
Dessa forma, mesmo que a personagem esteja representando uma pessoa real, ela trará mais significação, pois são construídas cuidadosamente a partir escolhas criteriosas e mais concentradas da realidade. Algumas criações de personagens conseguem marcar a vida do leitor, pois trazem interlaçados, nos aspectos físicos, psicológicos e comportamentais, lições de moral ou até mesmo deixando-o perplexo diante de algumas ações durante o enredo. As personagens costumam realmente causar comoção, sensibilidade e identificação no leitor.
Considerando a forte ligação do narrador com o personagem, convém dizer que o narrador de Os Sertões facilitará as análises, uma vez que se trata de um narrador onisciente intruso. Este que sabe das vontades e pensamentos dos personagens e ainda é capaz de opinar sobre os mesmos deixando transparecer para o leitor seu parecer a respeito dos personagens.
No romance há o conflito dramático. Se tem conflito dramático tem presença de protagonista e antagonista. O antagonista pode ser uma pessoa, um grupo de pessoas, um lugar, ou até mesmo o destino, de fato que o antagonista tem que contrariar as vontades do protagonista, com a oposição é revelado o conflito dramático. Em Os Sertões, temos a presença da Igreja em não aceitar as atitudes de Conselheiro, uma vez que Antônio Conselheiro se colocava como um suposto membro eclesiástico, fazendo sermões, cativando fiéis, reformando e construindo cemitérios, igrejas e capelas, também é revelado neste momento um dos antagonistas. Mesmo pedindo para colaborar nos movimentos religiosos, a igreja não permitiu.
— Irmão, não tendes (SIC) ordens; a igreja não permite que pregueis.
— Deixai-me, então, fazer a via sacra.
—Também não posso, vou eu fazê-la, contraveio mais uma vez o sacerdote. (CUNHA, 2018, p. 136).
Em Os Sertões a igreja não é o único elemento a ser colocado como antagonista, pois a República desejava derrotar Conselheiro e seus seguidores, por não aceitarem as mudanças sociais, mais precisamente a chegada da república, com isso fica clara a existência do conflito e de outro grupo de antagonistas. Antônio Conselheiro estava em Bom Jesus, quando soube dos lançamentos de editais, da Republica, referente à cobrança de impostos, com isso reuniu os fiéis “Levantou a voz sobre o auto de fé, que a fraqueza das autoridades não impedira e pregou abertamente a insurreição contra as leis”. (CUNHA, 2018, p. 137). A partir deste momento, surge uma mudança extraordinária no enredo, pois a força policial já começou a focar em Conselheiro, por causa da rebeldia em confrontar uma autoridade que se colocava como máxima para toda a sociedade.
Antônio Vicente Mendes Maciel (Antônio Conselheiro) é o protagonista da narrativa Os Sertões. Na obra não tem nenhuma passagem que retrate o nascimento ou a infância de Antônio Conselheiro, mas retrata que passou sua juventude ajudando seu pai Vicente Mendes Maciel, na cidade de Quixeramobim, cidade do Ceará. Seu pai era dono de uma casa de negócios, porém veio a falecer em 1855, deixando suas três filhas solteiras sob os cuidados de Antônio Conselheiro, que só veio a casar quando estas se casaram. O casamento do protagonista não durou muito, pois sua esposa, cujo o nome não é mencionado na narrativa, fugiu com um policial. Neste momento Conselheiro estava morando em Ipu, mas antes morou em Sobral e Campo Grande, municípios do estado do Ceará.
Após Conselheiro ser traído, pela mulher, muda-se para o estado da Bahia- e muda seu modo de viver, pois o que era antes um homem tradicional, passa a ser peregrino e seguido e admirado por vários fiéis. Percorre vários lugares passando em 1874 pelos sertões de Pernambuco e pelos sertões sergipanos. É preso em Itapecuru no ano de 1876, acusado de assassinar a mãe e a esposa, porém no mesmo ano é liberado, porque as acusações eram falsas.
Antônio Conselheiro entre 1877 a 1887, vagueia por algumas cidades e povoados do litoral da Bahia, dentre esses lugares percorridos nesse período de dez anos podemos mencionar: Curaça, Charrochó, Alagoinhas, Inhambupe, Bom Conselho, Jeremoabo, Cumbe, Mucambo, Maçacará, Pombal, Monte Santo, Tucano. Todas estas travessias já acompanhadas de fiéis, e em quase toda passagem construía capelas e reformava cemitérios e igrejas. Antônio Conselheiro passou a ser mal visto pela igreja, pois teimava em pregar sem ter o ofício do sacerdócio e as pessoas gostavam, isso enfraquecia o poder da igreja.
Em 1893, Conselheiro muda de postura, adquirindo uma de combatente, postura inteiramente nova, pois se revolta contra a República por causa das cobranças de impostos. Começou a pregar contra a República e as forças policiais começaram a lhe seguir. Neste mesmo ano chega a Canudos, espaço principal da narrativa, que já existia pessoas. Canudos é onde acontece todo o desfecho da narrativa, embora Canudos e o grupo messiânico tenham sido destruídos pelo exército republicano, Antônio Conselheiro faleceu de uma disenteria. Após o confronto foi achado debaixo de uma das casas destruídas e depois sepultado. Após algum tempo seu corpo foi exumado e seu crânio arrancado e levado para o litoral da Bahia, as pessoas veneraram aquele crânio.
. Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, carioca nascido em Cantagalos, em 20 de janeiro de 1866, órfão prematuro de mãe é criado por tios, por falta de condições de seu pai. Euclides foi muito dedicado aos estudos, tinha conhecimentos em diversas áreas como engenharia civil, história, jornalismo, antropogeografia e sociologia. Dono da autoria da narrativa literária Os Sertões é eleito em 1903 para a academia brasileira de letras, mas só toma posse em 24 de dezembro de 1906. Os Sertões são considerados por muitos críticos como o responsável pelo pedestal de sua glória, mas seus escritos não se resumem a este livro. Um ano após tomar posse da Academia Brasileira de Letras, surgem as demais obras: Peru versus Bolívia (1907) e Confronto (1907). À margem da história é outra obra de Euclides, porém não chegou a ser concluída, pois o autor foi assassinado aos 43 anos de idade, pelo amante de sua esposa Ana Emília Ribeiro, em 1909.
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Na narrativa, as revelações de alguns traços psicológicos de Conselheiro são muito fortes, “falso profeta” e “gnóstico bronco” são adjetivos introdutórios, direcionados a Conselheiro. A forma como Conselheiro fala e age permite ao leitor a inferir um pouco do carácter do protagonista, segundo Freitas:
Os traços psicológicos que se percebe de um personagem constituem o
que se chama etopeia, o mesmo de retrato moral. A forma mais direta de se perceber estes traços depende da facilitação do personagem em mostrá-los, seja em forma de confissão ou declaração a uma terceira pessoa, em um monologo interior, ou sob a forma epistolar. (FREITAS, 2010, p.25)
Na narrativa temos ausências de monólogos e declarações diretas por parte do protagonista. Tomaremos como base para a análise deste critério a forma como o personagem agia e algumas descrições trazidas pelo narrador, principalmente quando Conselheiro pregava, bem como a forma como as pessoas que o admiravam o viam, mas isso só será possível através do narrador, pois quase não temos diálogos na narrativa. O nome escolhido para um personagem é um dos fatores que permitem inferir um pouco da identidade do mesmo.
Conselheiro acreditava que a República era o anticristo e que o caminho para a salvação era não segui-la, com isso pregava contra ela para seus seguidores. Vale esclarecer que um gnóstico de índole religiosa acredita que há dois deuses, um Deus mau que cria este mundo e outro Deus que mostra o conhecimento para a salvação das almas, o Deus bom. Nesta perspectiva a República é colocada como Deus mau, e Conselheiro como o Deus bom, que aponta o caminho dos céus aos pecadores.
O personagem pregava para seus seguidores e, à medida que pregava fazia seleções de frases, era preocupado como iria falar, mas não com o que falaria. O que permite inferir que era importante para Conselheiro e realmente havia a necessidade de comover e convencer o povo para o messianismo e colocá-los contra a República. Percebemos que Conselheiro se tornou autoridade máxima dentro de seu grupo e este sabia de seu próprio potencial, seus seguidores se envolveram e renderam-se. Só pelo seu modo de falar estes realizavam, a mando de Conselheiro, reformas em cemitérios e construções e reformas de igrejas, sem receberem nada material pelos serviços, estavam satisfeitos e felizes apenas em ter Conselheiro por perto. A oratória de Conselheiro surtia efeito, na narrativa, é dita como bárbara e arrepiadora. Assim simultaneamente o mesmo também era.
As palavras de Conselheiro chegavam a ser desumanas, mas mesmo com discursos truncados cativou um grupo messiânico que chegou a compor vinte e cinco mil pessoas, pessoas de diversas “raças”.
Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro as aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante, ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. O temperamento mais impressionável, apenas fê-lo absorver as crenças ambientais, a princípio numa quase passividade pela própria receptividade mórbida do espírito torturado de revezes, e elas refluíram, depois, mais fortemente, sobre o próprio meio de onde haviam partido, partindo da sua própria consciência delirante. (CUNHA, 2018, p. 114).
Conselheiro surge como um manipulador e utilizando a oratória para intimidar pessoas e adquirir seguidores, mas não era qualquer pessoa que se deixava condensar no seu misticismo, eram apenas pessoas humildes e desentendidas, pessoas que estavam passando por momentos difíceis e viram nas ideias de Conselheiro um conforto para o sofrimento. Seus seguidores o tinham como o próprio Deus. Conselheiro tinha um temperamento que deixava as pessoas abismadas ocasionando admiração e consequentemente a devoção.
As descrições físicas dos personagens revelam muito sobre o mesmo, em Os Sertões há vários retratos de Antônio Conselheiro. A forma como Conselheiro se transformou fisicamente é assombroso, antes de se tornar peregrino a narrativa não revela suas características físicas, mas subentende-se que não dotava sempre das mesmas características, à medida que foi se transformando em peregrino, seu modo de se vestir, sua barba e cabelo literalmente começaram a se transformar.
Segundo Abreu (1963) o retrato de Antônio Conselheiro, na narrativa, foi montado baseado em especulações, deduções e informações, mesmo sendo uma pessoa real e mesmo Euclides estando presente, no cenário de guerra, estes não tiveram nenhum contato. Euclides ao trazer Conselheiro como personagem de Os Sertões, faz o retrato com respaldos dos critérios especulativos, juntamente com sua imaginação. Se tivessem tido contato o retrato de Conselheiro, na narrativa teria sido mais caprichado e mais próximo do real.
Conselheiro passa também pelos sertões de Sergipe, ao chegar neste lugar, o enredo revela mais alguns adereços em seu retrato físico.
Ali chegou, como em toda parte desconhecido e suspeito impressionando pelos trajes esquisitos – camisolão azul, sem cintura; chapéu de abas largas derrubadas, e sandálias. Às costas um surrão de couro em que trazia papel, pena e tinta [...] (CUNHA, 2018, p. 125).
Nesta descrição mais adereços que não aparecem na primeira, passam a ser revelados como: o chapéu e as sandálias e o surrão.
Na narrativa, Conselheiro é comparado a uma quase múmia, por causa de seu modo de se vestir e pelo seu estado físico, se maltratava e era maltratado pelo sol das penitências e os períodos de fome, nos sertões. “A epiderme seca rugava-se-lhe (sic) como uma couraça amolgada e rota sobre a carne morta”. (CUNHA, 2018, p. 127).
Uma personagem pode ser classificada, a depender do seu grau de densidade psicológica. Percebe-se que durante a adolescência, Antônio Conselheiro permaneceu-se conservador e pacato, tanto que chegou aos vinte anos e o narrador não nos traz nenhum fato relevante da personalidade de Conselheiro, mesmo com a morte do seu pai seguiu a vida sem nenhuma mudança e continuou sendo tranquilo, seguindo os padrões da época. E mesmo sua família de sobrenome Maciel, tendo vários atritos com a família dos Araújos, chegando a ocasionar mortes, permaneceu um adolescente pacato.
O filho, sob a disciplina de um pai de honradez proverbial e ríspido, teve educação que de algum modo o isolou da turbulência da família. Indicam-no testemunhas de vista, ainda existentes, como adolescente tranquilo e tímido, sem o entusiasmo feliz dos que seguem as primeiras escalas da vida; retraído, avesso à troça, raro deixando a casa de negócio do pai, em Quixeramobim, de todo entregue aos misteres de caixeiro consciencioso, deixando passar e desaparecer vazia a quadra triunfal dos vinte anos. (CUNHA, 2018, p. 122).
Neste momento podemos classificá-lo como uma personagem plana-tipo, pois segue em um padrão social, se mostrando um adolescente comum típico da época. A partir de 1858, teve uma reviravolta nos hábitos, o protagonista de Os Sertões é dono de uma complexidade por haver mudança de comportamento extraordinária. O que deixa marcado que realmente houve uma mudança de comportamento é que Conselheiro chegou a ter uma conjugue, é neste momento que percebe a decisão de Conselheiro em seguir uma vida diferente.
Conclusão
Este trabalho teve como objetivo analisar a construção do personagem Antônio Conselheiro da obra Os Sertões. Percebeu-se que o Conflito dramático é muito importante para entender a conduta e o papel cedido aos personagens, bem como a forma como foram construídos.
As poucas falas dos personagens e as revelações em algumas passagens mostradas pelo narrador, bem como o desfecho da narrativa mostra quão grande era o poder de Antônio Conselheiro sobre Canudos, todo vilarejo, juntamente com seus moradores foi destruído. A narrativa tem um desfecho que talvez o leitor possa presumir. No entanto, o desfecho poderia seguir outro viés. Bastava apenas uma única atitude de Antônio Conselheiro, render-se, todavia Cunha preferiu manter o fim da história real, embora tenha se apropriado de vários adereços, bem como o uso de hipérboles para construção do Personagem.
Espera-se que este trabalho venha a contribuir para outras pesquisas que envolvam não só a área literária, mas também áreas afins, que ajudem a despertar a curiosidade pela narrativa Os Sertões que, embora seja um clássico da literatura brasileira muito explorado ainda sentimos a necessidade de valorização tanto para uma simples leitura, quanto para pesquisas acadêmicas.
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