CANUDOS: A NOVA CANAÃ QUE INCOMODOU A REPÚBLICA
Postado por Felipe Toledo
RESUMO
O presente artigo é uma revisão bibliográfica que almeja compreender o fenômeno Canudos desde sua gênese até seu declínio. Através da leitura e síntese de vários livros e artigos, pretendo analisar aspectos do massacre até sua derrocada e uma breve recapitulação de toda a história germinada e difundida por um único homem, Antônio Vicente Mendes Maciel. A história da guerra ou do movimento de Canudos tem sido incansavelmente contada ao longo dos últimos cem anos. Analisada em várias de suas possíveis dimensões, este episódio ensejou diversas interpretações e marcou tragicamente o processo de transição política que deu origem ao regime republicano brasileiro.
Palavras-chave: Canudos. Antônio Vicente Mendes Maciel. História da guerra. Regime republicano brasileiro.
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Quatrocentos correligionários de Antonio Conselheiro presos (1897) |
Introdução
Das entranhas do Brasil ressoa canudos. Seu grito ainda se escuta no sertão imenso. A violação da vida nunca é esquecida! Ataliba Nogueira inicia sua grandiosa obra “Antônio Conselheiro e Canudos” com estas exímias palavras: “Sobem lentamente as águas na região de Cocorobó, na Bahia. Aos poucos vão inundando Canudos que, assim submersa, ficará apenas na história do Brasil”. E continua, “a feliz e infeliz Belo Monte, uma das maiores cidades baianas no fim do século dezenove, não figura mais nos mapas. Com o seu fundador, António Conselheiro, jaz no fundo da grande represa” (NOGUEIRA, 1978, p. 1).
Muitos são os fatores históricos, geográficos, filosóficos, culturais etc., que nos levaram ao lugar no mundo onde estamos hoje. Como diz Eduardo Hoornaert em seu livro “Cristianismo Moreno no Brasil”: “Somos uma república mestiça, étnica e culturalmente. Não somos europeus nem latino-americanos. Fomos tupinizados, africanizados, orientalizados e ocidentalizados. A síntese de tantas antíteses é o produto singular e original que é o Brasil atual”. (HOORNAERT, 1990, p. 13).
Euclides da Cunha, ponto de referência da virada do século, fonte primária de nossa pesquisa, elaborou a primeira teoria interpretativa do Brasil a partir do binônimo ‘moderno-arcaico’ (HOORNAERT, 1990, p. 13). E é esta uma das características peculiares de nossa gente, viver ora a bipolaridade, ora a fusão destas duas formas de estar no mundo.
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| Euclides da Cunha |
E este fato, a híbrida formação brasileira, é importantíssima para a compreensão de Canudos na sua totalidade. Pois, como veremos no desenvolvimento deste artigo, foram as antíteses entre a República e Monte Santo que levaram a sua destruição.
Em 1952 o Departamento Nacional de Obras contra as Secas inicia a construção do açude de Cocorobó. O Caderno de Fotografia Brasileira 55 (2002, p. 29 apud COSTA, 2017, p. 55) destaca que em visita à região o presidente Getúlio Vargas teria dito “Canudos é um cemitério que as águas cobrirão”.
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| Ruínas da Igreja de Canudos |
Em 1968 as chuvas intensas transbordam as águas do açude de Cocorobó e inundam a região da Canudos original que é destruída novamente. No período de estiagem, as águas baixam e as antigas ruínas das construções do arraial reaparecem. Como uma voz rouca que insiste em gritar, mesmo submergida pelas tragédias. Assim, as ruínas de Monte Santo gritam no silêncio gélido da submersão hídrica quase que completa.
No entanto, antes de chegarmos ao ponto da submersão – já fruto de omissões contemporâneas – temos um longo caminho a percorrer para uma compreensão no âmbito geral do fenômeno Canudos. Para isto, através da leitura e síntese de vários livros e artigos, pretendo analisar aspectos do massacre até sua derrocada e uma breve recapitulação de toda a história germinada e difundida por um único homem, António Vicente Mendes Maciel.
Por fim, também pretendo analisar alguns dos aspectos políticos que levaram Monte Santo a se tornar a “hecatombe da carniça”, termo utilizado num discurso não proferido, mas escrito por Rui Barbosa (BARBOSA, 1897, p. 301 apud NOGUEIRA, 1978, p. 1) na pobre, mas insistente tentativa de contribuição teimosa para a pesquisa sobre tão grandiosa trama de nossa história, “para o juízo sereno dos pósteros” (NOGUEIRA, 1978, p. 1).

Desenvolvimento
Não conseguiríamos compreender todos estes fatos sem uma recapitulação do “documento vivo de atavismo” (CUNHA, 1984, p. 66) como caracterizou Euclides da Cunha a Antônio Conselheiro. Urge nas entranhas do tempo a necessidade do reconhecimento histórico da figura que, sozinha, sem posses, apenas com uma bata azul clamou na caatinga tal como a figura bíblica de João Baptista no deserto. A simplificação da personalidade de Conselheiro não permite que descubramos a fonte inesgotável de pesquisa de sua vida e obra.
Nasce Antônio Vicente Mendes Maciel na vila de Quixeramobim – província do Ceará – em 1828. Estudou desde tenra idade o português, francês e latim. Órfão de mãe desde os seis anos de idade, perde o pai quando conta com vinte e sete anos. Tomando conta de suas irmãs e herdeiro dos bens de seu pai, em petição do próprio punho “requer no inventário e obtém a anuência dos credores para a dilação do pagamento das dívidas, dando-lhes garantia hipotecária (NOGUEIRA, 1978, p. 5)”.
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| Câmara Municipal de Quixeramobim (1928) |
Contrai casamento no ano de 1857 em Quixeramobim e neste mesmo ano passa a lecionar português, aritmética e geografia numa fazenda. Depois tenta a sorte em outras localidades, onde segundo Euclides da Cunha foi escrivão de paz e solicitador. No munícipio de Ipu ocorre a triste sina que mudará definitivamente a vida de Antônio. Sua mulher foge com João da Mata, furriel da força pública da província (NOGUEIRA, 1978, p. 6).
Desfeito seu lar de modo terrível e decepcionante, sua vida será marcada nestes anos posteriores pela tragédia e instabilidade. Muda constantemente de cidade e de profissão, o que leva a crer – segundo Nogueira – que faz perseguições frustradas à sua adúltera mulher.
Certa altura da jornada, na urgência da estabilidade perdida, decide-se a construir igrejas, erguer muros, açudes e cemitérios. Principia uma nova fase após o doloroso abandono. E segue tão bem nesta nova empreitada que passa com grande êxito a viver deste serviço que segundo Euclides da Cunha faz “com grande elegância” (NOGUEIRA, 1978, p. 6).
Este contato com o labor sacro o faz redescobrir a fé primitiva de outrora. E sua vida torna-se testemunho nos rincões do sertão, constantemente órfão de referências pela escassa presença de curas. Ao reabraçar o cristianismo, mister se faz o necessário perdão aos que haviam lhe feito mal. Deste modo, dá-se para Antônio um novo batismo. Desta vez, ganha um segundo nome, Conselheiro. E assim, segue não mais sozinho, mas agora cercado cada vez mais de devotos sedentos. De arraial em arraial, de povoação em povoação (NOGUEIRA, 1978, p. 6).
E sobre esta nova vida, afirma Nogueira:
Passa a sofrer a desgraça alheia. Aos que guardam o ódio e a sede de vingança em seus corações, António Maciel, que tudo perdoara e tudo esquecera, com a maior sinceridade lhes desperta o espírito cristão e junto com o desgraçado recita as orações populares do Pai nosso e Ave Maria. Acolhe com carinho principalmente as vítimas da politicagem infrene, do fisco voraz e das arbitrariedades policiais. Quantos, para tranqüilidade de espírito, enxergando as virtudes daquele homem, lhe pedem para ficar em sua companhia, trabalhando naquelas obras pias, em que se ganhava a vida de modo honesto. Passam a acompanhá-lo espontaneamente (1978, p. 6).
Gente de todos as condições sociais acolhe-se ao grupo do Conselheiro. De novo é notada a presença de António Vicente Mendes Maciel em muitos municípios, já agora acompanhado de numeroso grupo de auxiliares na construção de cemitérios e igrejas. “Considerável o número de povoações em que não há sacerdotes e de paróquias sem o pároco. Ele dirige as orações que o povo sempre costuma fazer às tardes. E suas prédicas são de grande fruto” (NOGUEIRA, 1978, p. 7).
É interessante perceber que a insurgência de Conselheiro é um grito de carência dos fiéis sertanejos, pela falta de sacerdotes para assistência de todo o povo. Muitos fatores fizeram com que o povo sertanejo vivesse em ‘diáspora’, segundo a feliz expressão de Cândido da Costa e Silva (HOORNAERT, 1990, p. 48). E esta diáspora católica dependia da visita do sacerdote, o assim chamado ‘desobriga’ que só o sacerdote é habilitado a ‘administrar’. E o sistema até hoje ainda vigora em muitos lugares. Cada paróquia sertaneja tem sua ‘matriz’, que pertence ao mundo urbano, e múltiplas capelas no mundo rural marcado por enormes distâncias.
Esse sistema é frustrante e pode ser percebido segundo o depoimento de um vigário do sertão:
Levando um Cristo itinerante só dos minutos fugidios da missa, cada dia em uma paragem atarantado pela azáfama de atos diversos do ministério, mal pode atentar nos fatos e aspectos em torno do altar, do confessionário, da pia batismal improvisada, do cemitério. Ficará sempre enleado nos comedimentos de hóspede conspícuo, para observar outros fatos, e terá que ser sertanejo mesmo para ler nas entrelinhas, o íntimo das almas que pastoreia (HOORNAERT, 1990, p. 49).
E o sertanejo, por sua vez, é vítima de um contato fugidio, mecânico, formal, sempre apressado, irregular e afinal de contas pouco orgânico por parte da igreja oficial. Por isso, ele cria um cristianismo próprio, alimentado pelas santas missões e pelas referências laicais como Conselheiro. Que no dizer de Cândido da Costa e Silva, a estas missões “deve-se basicamente a formação cristã da gente sertaneja”. Este foi o método pastoral que se adaptou melhor às condições de vida no sertão. Que foi aplicado desde o século XVII por capuchinhos, oratorianos, carmelitas, lazaristas franceses e grupos de sacerdotes seculares (HOORNAERT, 1990, p. 44).
A piedade popular se constituiu no elemento social de maior poder aglutinador do Brasil. Nela, o culto doméstico, com seus oratórios privados prevalecia sobre liturgia, e nas cidades os fiéis se reuniam em irmandades, que promoviam numerosas festas religiosas, procissões e romarias. A miscigenação racial e a alforria deram o toque final para a solidificação dessa original forma de ser Igreja, que se tornou popular porque soube preencher lacunas pastorais (VIEIRA, 2016, p. 308).
O católico brasileiro pouco participava dos sacramentos e assistia esporadicamente a missa, celebrada em latim, cujo ar místico ele respeitava, mas não compreendia. Coube então as procissões, novenas, rezas, peregrinações, santeiros, benzedeiras e beatos a função de darem o caráter vivencial à religião, suprindo uma necessidade de que a liturgia não estava em grau de satisfazer (VIEIRA, 2016, p. 308).
Colocando-se ao lado do povo pobre e necessitado, espoliado e oprimido, Antônio Conselheiro levanta contra si certas autoridades civis e religiosas. Na linguagem de Euclides da Cunha, "eclipsando autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando" (CUNHA, 1984, p. 70 in NOGUEIRA, 1978, p. 9). Recebendo queixas de diversos padres, o arcebispo primaz da Bahia, d. Luís Antônio dos Santos, aos 16 de fevereiro de 1882, expede circular ao clero para que não tolere as prédicas do Conselheiro e evite a sua ação entre o povo.
No Brasil, segundo Riolando Azzi, uma das questões a enfrentar era a disseminação do que chamou de catolicismo popular, eivado de “ignorância, superstição e fanatismo”, aspectos que precisavam ser arduamente combatidos. A missão de frei João Evangelista se inseria nesse projeto de chamar o Conselheiro e seus “infelizes asseclas aos deveres de católicos e cidadãos, que de todo esqueceram e violam habitualmente com as práticas as mais extravagantes e condenáveis, ofendendo a religião e perturbando a república”. Como se pode ver, além do compromisso especificamente religioso, a Igreja já assimilara a adesão à nova ordem laicizada do poder que, se por um lado lhe deu liberdade organizacional com o fim do padroado, por outro lhe fez perder o lugar cativo que até a instauração da República tivera na esfera política (HERMANN, 1996, p. 9).
O relatório apresentado pelo religioso é mais um exemplo claro dessa perda de poder da Igreja. Recebido pelo Conselheiro, o enviado de D. Macedo Costa não teve nenhuma dificuldade em rezar missas, fazer batizados ou casamentos, apesar de deixar clara sua missão: “aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar aos lares e ao trabalho, no interesse de cada um e para o bem geral”. Mas ao insistir em pregar pela adesão dos conselheiristas à nova ordem institucional, acabou praticamente expulso do arraial, de onde saiu com a convicção de que “A seita político-religiosa, entrincheirada nos Canudos, não é só um foco de superstição e fanatismo, é um pequeno cisma na igreja baiana, um núcleo na aparência desprezível, mas um tanto perigoso e funesto de ousada resistência e hostilidade ao governo constituído do país” (HERMANN, 1996, p. 9)
Das autoridades civis, principalmente o delegado de polícia de Itapicuru, em 1886, dirige longo ofício ao presidente da província. No ano seguinte, 1887, de novo o arcebispo da Bahia pede providências ao presidente. Como ninguém lhe apontasse a prática de fatos criminosos, o presidente da província toma a iniciativa de oficiar ao ministro do império, solicitando-lhe a internação de António Vicente Mendes Maciel no hospício de alienados do Rio de Janeiro. Mas o ministro não serviu de instrumento à perseguição e responde-lhe apenas que não há vaga (NOGUEIRA, 1978, p. 9).
Propõe-se Conselheiro a fundar uma cidade. Após a proclamação da república, descontente, pois trazia inclinação monarquista, prefere recolher-se num refúgio para sua vida de oração, trabalho e prédicas junto com os que o seguiam. Assim, em 1983 escolhe Canudos, antiga fazenda de criação, às margens do rio Vaza-Barris, que estava em total abandono (NOGUEIRA, 1978, p. 9).
Euclides da Cunha afirma que para lá convergiam turmas sucessivas de povoadores de diversas vilas e povoados mais remotos. Diz uma testemunha em sua obra que:
Alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal a aluvião de famílias que subiam para os Canudos, lugar escolhido por Antônio Conselheiro para o centro de suas operações. Causava dó verem-se expostos à venda, nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas etc. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro (CUNHA, 1984, p. 81).
Trabalham lá sossegados, “sem a perseguição do fisco, de soldados, de autoridades estranhas. A seu lado, entre os seus, o Conselheiro conta com excelentes auxiliares para administração, não só homens devotados, mas inteligentes e práticos” (NOGUEIRA, 1978, p. 9).
Desde a sua origem, Canudos abrigava um grande número de ex-escravos, e podia ser considerada – segundo Silva – “como sendo o último quilombo dos inícios da República”. E, a causa imediata do aparecimento do movimento religioso decorria da crise econômica, social, religiosa e política do final do século XIX (SILVA, 2001, p. 7).
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| Canudos (1896-1897) |
Houve a terrível seca de 1877, diz, que, como sempre acontece nessas estiagens, fazia com que o povo prestasse muita atenção nas coisas divinas e a partir do desenvolvimento de uma esperança buscasse materializar as promessas de dias melhores. O aparecimento do protestantismo também foi um impacto chocante e que provocou reação de recolhimento nos espíritos mais conservadores (...). E não se pode esquecer que a abolição do cativeiro também apresentou um fato terrivelmente assustador e que afetou, de perto, muitos milhares de pessoas... a mobilização física desses escravos foi enorme. Alguns desses negros, ex-escravos, que foram a Canudos e eles diziam que queriam ir para “um lugar onde a casa tivesse janela e porta-de-fundo”, porque nas senzalas não havia... ora, isso era possível em Canudos por lá eles construíam a própria casa... Outro fator externo e que implicou uma introspecção foi o advento da República. A queda do Império e o advento de uma “nova era” era algo demais para o sertanejo... além disso a inflação ocorrida em 1890 fazia com que eles não acreditassem no dinheiro da República e com isso fizessem comparações constantes com o do Império (MEIHY, 1993, p. 29 apud SILVA, 2001, p. 7-8).
O arraial “crescia vertiginosamente, coalhando as colinas” (CUNHA, 1984, p. 82), até que em 1896 se dá um “incidente desvalioso” como qualifica Euclides da Cunha. Por conta de ações levianas de uma só pessoa – segundo Nogueira – encontramos o ponto crucial “e o princípio dos males tremendos sobrevindos a Canudos, ao exército nacional, ao Estado da Bahia e ao Brasil (NOGUEIRA, 1978, p. 15). Narraremos resumidamente como se deu esse desfecho infeliz e crucial, segundo as construções históricas de Nogueira (1978) e Cunha (1984).
Com o rápido crescimento da população canudense, no outro extremos da praça central da povoação, constrói-se o novo templo delineado pelo próprio Conselheiro. Encomenda toda a madeira para o telhado da igreja na cidade de Juazeiro, na Bahia. “Quanto a esta nova compra, espalha-se o boato de que o Conselheiro iria pessoalmente escolher madeira” e iria invadir a cidade onde ordenaria o saque geral do comércio (NOGUEIRA, 1978, p. 16).
Este boato que denominaríamos hoje de fake News se deu porque “ao saber que, embora paga não era despachada a madeira por falta de quem a transportasse, o Conselheiro mandara avisar que iria buscá-la com sua gente. E apesar de muitos não acreditarem no boato, o jovem juiz de direito de Juazeiro, “precipitada e levianamente telegrafa ao governador requisitando enérgicas providências” (NOGUEIRA, 1978, p. 18).
Depois de grande insistência, é enviada a força de cem praças do exército para ir ao encontro dos canudenses. E narra o próprio Euclides da Cunha que na madrugada de 21 se desenha no extremos da várzea o agrupamento de canudenses. “Um coro longínquo se faz ouvir, cantando os Kyries em toada vagarosa, rezando. Parecia uma procissão de penitência, sem aparências guerreiras”.
Então eles que marcaram data para vir buscar a madeira; eles que vinham em procissão, rezando o rosário e cantando hinos religiosos; que chegavam já com a luz do sol, quando podiam escolher a noite, que não traziam armamento militar, mas, segundo Euclides, eram "combatentes armados de velhas espingardas, de chuços de vaqueiros, de foices e varapaus". (...)começaram de ser fuzilados em massa". Afirmação de Euclides, que continua: "Baquearam em grande número: e tornou-se-lhes a luta desigual a despeito da vantagem numérica. Batidos pelas armas de repetição, opunham um disparo de clavinote e cem tiros de Comblain" (NOGUEIRA, 1978, p. 20).
Dos fatos que se sucedem, faz-se mister citar integralmente:
No Rio de Janeiro e dali para todo o Brasil, os jornais excitavam os republicanos com a notícia de que "os fanáticos do Conselheiro, com armamento moderníssimo e abundante munição, comandados pelo conde d'Eú, pretendiam restaurar a monarquia"! Não obstante este suposto "perigo", mesmo assim, ·se digladiavam as várias facções dos partidos republicanos. E o Conselheiro é que era o responsável pelo risco que corria a república! Em plena guerra de Canudos, em conferência realizada na noite 24 de maio de 1897, no Politeama Baiano, Rui Barbosa não admite que o movimento seja pela restauração ·da monarquia. "Essa insimulação estólida, que encarnava em António Maciel as reivindicações do monarquismo, nunca se deu sequer ao trabalho de autorizar com a mais tênue sombra de prova o libelo, cuja ferocidade se cevou em chamas e sangue. Ninguém logrou, até hoje, precisar o mais leve indício de mescla restauradora nos sucessos de Canudos" (NOGUEIRA, 1978, p. 20).
E assim, foi se espalhando inverdades que levaram a decisão político-militar de exterminar os seguidores de um beato errante que se estabelecera na Fazenda Belo Monte lá pelos idos de 1893.
É imperativo observarmos nesta última fase de Canudos a importância do “folclore de guerra” como é denominado por José Calasans (1915-2001) – um dos maiores estudiosos do fenômeno Canudos. E ele denomina utilizando este termo justamente “pelo cunho eminentemente místico”. E continua: “sem embargo das sátiras, das anedotas, dos cantos guerreiros, dos recontos heroicos etc., o que predomina no comportamento do soldado combatente é o comportamento místico” (CALASANS, 1969, p. 2).
Este “amor ao sobrenatural” torna-se cada vez mais latente em cada vitória do arraial. Convencidos da força superior de Conselheiro, os jagunços lutavam confiantes. Não se atemorizavam diante da morte, porque o líder carismático ressuscitaria a todos eles e confundiria os inimigos. As vitórias eram consideradas como provas de dons sobrenaturais do santo emissário (CALASANS, 1969, p. 03).
A história da Campanha, de acordo com as estórias dos jagunços, é uma série de retumbantes e milagrosos sucessos, que começam com a derrota da força policial baiana em Masseté e vão terminar com a ida de Antônio Conselheiro ao céu, donde retornaria para liquidar os infiéis.
Na segunda expedição, após o episódio de Juazeiro – citado acima - reunindo aproximadamente 600 homens, canhões e metralhadoras. Os atritos entre o governador Luiz Vianna e o general Frederico Sólon Sampaio Ribeiro, comandante do Terceiro Distrito Militar começavam a indicar como o combate a Canudos alimentaria a animosidade entre os aliados do presidente e os radicais do Exército. Inconformado com o que considerava uma intromissão inaceitável e desnecessária nos assuntos baianos, Luiz Vianna fez questão de continuar dirigindo o cerco aos conselheiristas, mas pagaria caro pela vitória política que levou à exoneração do general Sólon. Derrotado em janeiro de 1897, depois de mais de um mês de caminhada em terreno árido e quatro dias de batalha, Febrônio de Brito teve dificuldades para explicar como soldados bem armados haviam sido derrotados por homens que lutavam com foices, facões, forquilhas e velhas espingardas (HERMANN, 1996, p. 13).
O primeiro registro oficial do governo da Bahia sobre Antônio Conselheiro e a fazenda Belo Monte só aparece na “Mensagem ao Presidente da República” datada de 15 de março de 1897, depois, portanto, da morte de Moreira César. A essa altura, o governador baiano já era Luiz Vianna e este documento procurava não só demonstrar seu pesar pela “perda irreparável de uma porção de seus filhos, que honrando o exército brasileiro, fora dele arrebatado pela fúria do fanatismo aplaudido pelos inimigos das instituições vigentes...”, como pretendia justificar o gravíssimo incidente que deixara seu governo sob suspeita. Isto porque esse momento explicitou de forma contundente a oposição dos chamados “jacobinos”, grupo heterogêneo e radical composto por intelectuais, parlamentares, políticos ligados a oligarquias estaduais, e sobretudo militares, adeptos da retomada do poder pelo Exército (HERMANN, 1996, p. 10).
Luiz Vianna encontrou na falta de informações do major sobre a verdadeira dimensão do reduto e da periculosidade dos sertanejos acoitados em Belo Monte a causa para o imprevisto desbarate das forças legais. “A confiança no bom êxito da diligência com as forças de que dispunha, manifestou-a sempre o major Febrônio desde os primeiros preparativos”, afirmava o governador. E concluindo: “Diante de tudo isso não era lícito ao governo duvidar, em nenhum momento do êxito da expedição...”. 24 Mas a derrota e a acusação de incompetência do major, um aliado da ala radical do Exército, pioraram ainda mais as relações entre os dois grupos políticos. Ironicamente pressionado pelo desastre do grupo opositor, Luiz Vianna se viu praticamente obrigado a aceitar a indicação do nome do ultrarradical Moreira César para o que se pensava ser a última expedição contra os subversivos de Canudos. A nomeação do afamado coronel era uma questão de honra para a recuperação rápida e definitiva dos brios do Exército. Na verdade, o que estava em jogo agora não era apenas a intervenção do governo federal na política local, mas o comando simbólico das forças que tinham o poder real de lutar contra os adversários da República (HERMANN, 1996, p. 10; CALASANS, 1969, p. 09).
A derrota da terceira expedição foi um duro golpe, àquela altura imprevisível, no fragilíssimo equilíbrio de forças políticas da primeira fase da vida republicana. Definitivamente ultrajados, os radicais não poupariam críticas e acusações àqueles que demonstravam empenho duvidoso em, de fato, destruir o que passou a ser considerado um verdadeiro antro restaurador. Para Luiz Vianna e para o grupo de Prudente de Moraes, que voltou à presidência em abril de 1897, a derrota significou a necessidade urgente de conter a oposição e impedir a tomada do poder através de um golpe, estratégia claramente legítima para os jacobinos. Para Antônio Conselheiro e seus adeptos, a derrota de Moreira César selaria sua sentença de morte (HERMANN, 1996, p. 10; CALASANS, 1969, p. 12).
A morte de Floriano Peixoto em junho de 1895 contribuiu imensamente para o agravamento do quadro político. Sepultado como herói nacional, e considerado pelos seus fiéis seguidores como o ideal de dirigente político, o elogio fúnebre dos florianistas era uma crítica direta e dura ao governo de Prudente de Moraes, visto pelos radicais como excessivamente permissivo e pouco determinado para conter a onda monarquista que os jacobinos acreditavam ter ressurgido vigorosamente (HERMANN, 1996, p. 09).
A morte de Moreira César na guerra contra os conselheiristas, sendo ele um ilustríssimo integrante do Exército e adepto da facção radical dos militares, explodiu como uma verdadeira bomba no cenário político da capital. Uma de suas consequências mais trágicas foi ter posto Antônio Conselheiro e seu arraial no centro da arena que oporia decisiva e definitivamente projetos políticos contrários mais nos métodos do que nos princípios. Seja como for, a solução inconciliável desse conflito precisou destruir Canudos para provar que, afinal, todos lutavam em nome da República (HERMANN, 1996, p. 09).
Porém, para o que aqui nos interessa mais de perto, parece não haver dúvida que foi a partir desse contexto e da criação de um clima conspiratório e revolucionário que o governo federal preparou a quarta e última expedição para destruir, “destroçar” Canudos, como diria o presidente. Pouco interessado nas reais motivações para a reunião de um grupo de seguidores do beato Antônio Conselheiro, e sem qualquer preocupação em comprovar a dimensão do verdadeiro perigo representado pelo arraial, Prudente de Moraes se viu diante da urgência do extermínio.
Eliminar os canudenses passou a ser uma questão crucial para a sobrevivência política do projeto civil, e àquela altura paulista, de consolidação da República no Brasil. Diferentemente das três primeiras expedições, esta última foi estrategicamente planejada e contou com forças mobilizadas em diversos pontos do país. Comandada pelo general Arthur Oscar de Andrade Guimarães __ um “florianista vermelho” que, segundo acreditavam seus aliados, liquidaria sem demora o perigoso foco monarquista __, a quarta expedição à Canudos reuniu quase 10.000 soldados e o mais moderno armamento bélico disponível. Mas nem assim foi fácil debelar os revoltosos, já que esta etapa final da guerra durou mais de seis meses. Preparada desde março de 1897, só teria fim em outubro desse mesmo ano, sem a rendição dos subversivos e sem a comprovação de que o arraial servia diretamente à causa restauradora (HERMANN, 1996, p. 13).
Não entrarei aqui na minúcia do que foram os sangrentos ataques travados entre soldados e conselheiristas nesta expedição. Muitos já o fizeram e o relato das dificuldades de arregimentação de soldados no interior dos estados vizinhos, dos problemas de abastecimento e de todas as consequências decorrentes do desconhecimento da geografia e da flora local nos afastaria da análise do contexto político que levou ao extermínio de Canudos. Durante todo o desenrolar da quarta expedição Canudos não deixou de ocupar o noticiário da capital e os informes do general Arthur Oscar sobre os avanços do Exército na região não deixaram de ressaltar a grandeza do papel das forças militares na consolidação dos princípios republicanos.
Em fins de setembro a derrota dos canudenses estava definida. Com a morte de Antônio Conselheiro no dia 22, a capacidade de resistência dos sertanejos dava mostras inquestionáveis de que chegara ao seu limite. Em 1° de outubro um poderoso ataque ao arraial levou à primeira tentativa de acordo com as tropas legais. Antônio Beatinho, como nome já diz, um fiel seguidor do beato-mor de Canudos tentou negociar uma proposta de paz com os generais de Arthur Oscar. Porém, como todos os demais sobreviventes encontrados nos escombros de Belo Monte, foi degolado. Depois de obrigado a saudar a República, como todos os outros, morreu exclamando: “Viva o Conselheiro!”. No dia 5 de outubro de 1897 Canudos foi invadido pelas tropas do Exército em busca do corpo do Conselheiro, encontrado no dia seguinte (HERMANN, 1996, p. 16).
Apesar das controvérsias sobre a verdadeira identidade do morto encontrado, sua cabeça foi enviada à Faculdade de Medicina da Bahia para estudo. Lá foi examinada pelo precursor das teorias que pregavam a degenerescência da mistura das raças, Nina Rodrigues, que concluiu que “o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência: é um crânio de mestiço onde se associam caracteres antropológicos de raças diferentes...é pois um crânio normal”. À falta de embasamento científico para justificar a ferocidade do ataque veio somar-se a ausência de quaisquer documentos que indicassem o compromisso dos canudenses com uma conspiração monárquica organizada. Nas ruínas do que fora o arraial, nenhum papel comprometedor, nenhuma prova que incriminasse os sertanejos da Canudos foi encontrada (HERMANN, 1996, p. 20).
Obedecendo à lógica das conspirações, tanto o superdimensionamento do perigo representado por Canudos como a forte estrutura conspiratória apontada pela investigação do atentado parecem conter o exagero que normalmente informa estes acontecimentos. Seja como for, no que toca especificamente a Canudos, da projeção pública e nacional que conheceu desde março de 1897, até sua destruição, em outubro deste mesmo ano, as vozes que clamavam pela necessidade do extermínio pareciam unidas, mesmo que a convicção nem sempre estivesse ancorada numa observação atenta do que era e do que, realmente, representava aquele grupo de sertanejos despossuídos (HERMANN, 1996, p. 20).
Transformados em alvo de uma disputa política que decerto desconheciam, Antônio Conselheiro e seus fiéis foram mortos em nome da ordem e do progresso, se optarmos por uma leitura mais superficial dos acalorados discursos que tomaram conta do cenário político deste momento. Mas ao aprofundarmos um pouco a análise desta conjuntura, concluímos que os sertanejos foram mortos em nome da República e de todos os abstratos princípios que a norteavam, embora o verdadeiro desafio para o enfrentamento armado tenha partido menos da certeza da ameaça representada pelos “inimigos” e mais, muito mais, das disputas travadas dentro do palácio do governo, na capital federal (HERMANN, 1996, p. 20).
Não foi, portanto, uma guerra ideológica que opôs civilização e barbárie, a raiz da guerra a Canudos. Mas uma guerra bem menos edificante e nobre que, longe das reflexões sociológicas e científicas, colocava em pauta métodos ainda pouco civilizados para a manutenção do poder. A falta de investigação sobre a natureza do agrupamento dos canudenses e a forma extremamente violenta e sumária como foram eliminados demonstram a dificuldade de adaptação de um discurso que pregava uma ordem democrática e liberal a uma prática ainda autoritária e discriminatória para lidar com os inimigos.
Conclusão
“Canudos não se rendeu”, assim Euclides conclui os Sertões. Mostrando a bravura incondicional de todo o Arraial representada por “um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”. O extermínio dos conselheiristas tornar-se-ia uma mancha que até hoje os representantes do Exército procuram esconder, seja através de depoimentos sobre a bravura de seus combatentes, seja através do silêncio (CUNHA, 1968, p. 264).
Nada mais natural que a grandeza do episódio e o número suposto de mortes numa das mais cruentas guerras fratricidas que o Brasil conheceu continuem a desafiar pesquisadores nestes cem últimos anos. Os aspectos do massacre e principalmente de todo o contexto histórico que nos trouxe até 1987, aqui aprofundados e revalorizados, pretendeu tão somente contextualizar mais detidamente a conjuntura que, segundo acreditamos, foi a verdadeira causa da guerra contra Canudos.
REFERÊNCIAS
BARRETO, Romano. Um líder carismático Antônio Conselheiro. Sociologia. Revista didática e científica. São Paulo, vol. IV, agosto de 1942.
CALASANS, José. A fase da Campanha. 1996. Disponível em: < José Calasans | Professor | Historiador | Folclorista (josecalasans.com)>. Acesso em: 20/10/2020.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 27 ed., Rio de Janeiro: Editora Paulo Azevedo Ltda, 1968.
HOORNAERT, Eduardo. O cristianismo moreno no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.
HEERMAN, Jacqueline. Canudos Destruído em Nome da República Uma reflexão sobre as causas políticas do massacre de 1897. Tempo, Rio de Janeiro, vol. 2, n°. 3, 1996, p. 81-105.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Trad. Bernardo Leitão... (et al). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
OLAVO, Antônio. Memórias fotográficas de Canudos. Salvador, Ato Graphitea/CNPq, 1989.
VIEIRA, Dimerlando Ramos. História do catolicismo no Brasil (1500-1889): Volume I. Aparecida, São Paulo. Editora Santuário, 2016.
SILVA, José Maria de Oliveira. A guerra de Canudos e os sertões de Euclides da Cunha: imaginário popular e revisão acadêmica. Revista Tempos históricos. M. C. Rondon. V. 03; nº01, p. 31-52. Agosto de 2001.





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