CARLOS MARIGHELLA E ALN: ESTRATÉGIA, MÉTODOS E AÇÕES DA GUERRILHA NO BRASIL

 

 Postado por Felipe Toledo

 RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo analisar a estratégia elaborada pelo revolucionário brasileiro Carlos Marighella e pelo seu grupo guerrilheiro: a ALN, Ação Libertadora Nacional. Discutir os métodos defendidos pelo guerrilheiro urbano na luta contra o regime militar, além de descrever e fazer uma análise crítica das ações armadas mais importantes da ALN e de outras organizações da esquerda radical. Realizou-se uma importante pesquisa bibliográfica analisando os principais textos produzidos pela ALN e por Carlos Marighella; livros escritos por ex-guerrilheiros como Jacob Gorender, Alfredo Syrkis, Carlos Eugênio Clemente; autores como Alberto Berquó e Mário Magalhães; os documentos produzidos pela Comissão da Verdade; entre outros.

Palavras-chave: Ditadura Militar. Guerrilha. Luta armada. ALN. Carlos Marighella.

 

INTRODUÇÃO

 Minimanual do Guerrilheiro Urbano orienta sobre táticas de combate para  comunistas

O presente trabalho tem como objetivo analisar a estratégia desenvolvida pelo guerrilheiro Carlos Marighella para o lançamento e desenvolvimento da guerra revolucionária contra a ditadura militar e o imperialismo americano no Brasil. Analisar os métodos de violência revolucionária defendidos por Carlos Marighella, principalmente em seu Mini-manual do Guerrilheiro Urbano; apontando o uso desses métodos em ações revolucionárias utilizadas pela guerrilha no Brasil e fazer uma análise crítica de seus erros e acertos.

As questões que nortearam o trabalho são:

- A estratégia de guerra revolucionária e tomada do poder por Carlos Marighella poderia ter tido êxito?

- Os métodos de violência revolucionária ensinados por Carlos Marighella eram realmente eficazes?

- As ações revolucionárias da ALN de Carlos Marighella e de outros grupos armados conseguiram enfraquecer a ditadura militar?

Ao analisar essas questões procura-se compreender a eficácia da luta armada como método para desencadear uma guerra revolucionária e derrubada da ditadura militar, analisando seus pontos positivos e negativos; entender como o povo brasileiro compreendia e se relacionava com os grupos revolucionários urbanos; os problemas morais relacionados ao uso do terrorismo revolucionário contra o terrorismo de Estado da ditadura militar. Os erros e acertos da guerrilha brasileira durante suas ações armadas nas cidades. Esse estudo é importante devido ao fato da luta guerrilheira desempenhar ainda hoje um papel importante para diversos grupos revolucionários ao redor do mundo: como o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) no México; as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc); a guerrilha maoísta na Índia (Naxalita) e a mais recente Milícia do Povo de Donbass, surgida nas províncias de Donetsk e Lugansk após o golpe de Estado na Ucrânia.

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Para atingir os objetivos propostos foram utilizadas pesquisas bibliográficas através de análises minuciosas de documentos produzidos pela ALN durante o breve período de sua existência como grupo revolucionário; livros dos ex-guerrilheiros Carlos Marighella (1969), Alfredo Syrkis (1980), Jacob Gorender (2014), Leopoldo Paulino (2008) e Carlos Eugênio Paz (2018); dos jornalistas Lucas Figueiredo (2009),  Mário Magalhães (2012), José e Miranda (1984).

 

 Estratégia de Marighella para as guerrilhas no Brasil

 

Segundo Carlos Marighela, a guerrilha havia se incorporado à vida dos povos como estratégia de libertação, o único caminho para expulsar as oligarquias e o imperialismo e levar as massas ao poder.

A revolução comandada por Fidel Castro e Che Guevara foi fundamental para o pensamento do revolucionário brasileiro, em seu artigo Algumas Questões Sobre as Guerrilhas no Brasil, Marighella afirma que o papel estratégico da guerrilha foi introduzido na história pela revolução cubana. Até aquele momento as experiências de revoluções marxista-leninistas se assentavam nas bases da guerra anti-imperialista mundial ou em guerra civil para a tomada do poder. A revolução cubana trouxe um novo conceito: a possibilidade de conquista do poder através da guerra de guerrilhas e de expulsão do imperialismo, sem a necessidade de guerra mundial e guerra civil. 

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A estratégia fundamental da guerrilha era a expulsão do imperialismo dos Estados Unidos. Essa tarefa consiste em aniquilar as forças militares dos Estados Unidos e dos militares convencionais brasileiros:

 (...) "aniquilar" também quer dizer desgastá-las, esgotá-las, desmoralizá-las e separá-las, no final, das forças militares dos Estados Unidos, deixando os imperialistas sozinhos e as reacionárias forças armadas nacionais completamente destruídas. Sempre que os Estados Unidos estiverem acompanhados de forças militares "gorilas" de países latino-americanos, é necessário "aniquilar" o inimigo um a um e deixar os imperialistas combatendo isolados. Será este sempre o sentido em que empregamos o termo "aniquilar". (Marighella, 1967)

 Carlos Marighella acreditava na conflagração da guerrilha em toda a América Latina, criando assim “dois, três, muitos Vietnãs…”. Para isso era necessário estreitar os laços de cooperação com outras guerrilhas dos países que faziam fronteira com o Brasil para, assim, aniquilar os militares latino-americanos.

Marighella acreditava na ofensiva estratégica como principal método de guerrilha no Brasil, segundo ele a guerrilha foi adotada pela URSS e pela China durante a Segunda Guerra Mundial como complemento da guerra convencional. No Brasil a guerra de guerrilhas não desempenharia um papel de complemento de uma guerra regular, pois essa guerra não existe. Na visão dele, o papel da guerrilha deveria cumprir função estratégica. O Brasil seria um país apropriado para um ofensiva estratégica da guerrilha pois é um país de proporções continentais onde há espaço para mover-se: “A guerrilha brasileira tem que estar educada para operações móveis, desde as mais elementares até as mais complexas, pois uma guerra revolucionária prolongada no Brasil será uma guerra de movimento. ” (Marighella, 1967)

Além disso, Marighella acreditava que a variedade das ocupações e a numerosa população do país serviriam de reserva estratégica: recursos humanos reforçados pelos contingentes de operários e camponeses. Na visão dele, ao contar com essas reservas estratégicas e com os objetivos políticos patrióticos como a expulsão do imperialismo e tomada do poder para a total libertação e transformação do país, a guerrilha teria nessa ofensiva estratégica um método invencível de guerra revolucionária.

Carlos Marighella afirmava que era necessário evitar o cerco estratégico do inimigo que era a extensa área litorânea onde havia a concentração da superestrutura das classes dominantes e suas forças repressivas. Devia-se evitar esse cerco pois o inimigo tinha tropas acampadas em toda a região litorânea, inúmeras facilidades de comunicação e transporte. O inimigo dominava com suas forças militares o relevo norte-sul na faixa litorânea entre os maiores centros urbanos do país.

Era necessário obrigar o inimigo a deslocar-se para fora da área litorânea para perseguir a guerrilha. Essa situação permitiria o crescimento das forças revolucionárias nas cidades que cortariam as linhas de comunicação e abastecimento do inimigo.

Assim, as consequências para as forças armadas convencionais serão desastrosas, não só por terem de combater fora do seu "habitat" natural, como porque se verão obrigadas a enfrentar o castigo das forças urbanas revolucionárias na retaguarda. (Marighella, 1968)

Em resumo: a estratégia fundamental do guerrilheiro urbano era conseguir armamentos e recursos financeiros nas cidades; formar uma estrutura guerrilheira no campo para lançar a guerrilha rural; obrigar que o contingente militar brasileiro fosse deslocado da cidade para perseguir a guerrilha no campo; aproveitando-se da diminuição de proteção militar nas cidades, a guerrilha e rebelião urbana deveriam aumentar, além de cortar rotas de suprimento dos militares que foram perseguir os guerrilheiros rurais. Deixando assim, os militares confusos e desmoralizados.

A lei básica da guerrilha era a preservação de suas forças e o aniquilamento das forças do inimigo. A guerrilha se dividiria em 3 fases fundamentais: A primeira era o planejamento e a preparação da guerrilha; o segundo era o lançamento e a sobrevivência dela; a terceira fase era o crescimento da guerrilha e a sua transformação em guerra de manobras. O tempo de duração dessas fases não importa.

Para a primeira fase da guerrilha era necessário um núcleo de guerrilheiros. Este núcleo deveria ser imune ao convencionalismo dos partidos políticos tradicionais e suas lideranças oportunistas. Deveria ser exposto claramente às massas que o objetivo da guerrilha era a expulsão do imperialismo dos Estados Unidos, a destruição da ditadura e de seus militares e o estabelecimento do poder do povo.

A boa preparação começava com uma seleção cuidadosa dos homens que viriam do setor operário e camponês. 

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A preparação da guerrilha exige ainda o adestramento do combatente, sobretudo para o tiro e a marcha a pé, algumas armas e munições, a exploração do terreno, noções de sobrevivência e orientação, e a organização inicial de apoio logístico, incluindo a coleta de recursos dos tipos. (Marighella, 1967)

A fase de lançamento da guerrilha deve-se constituir em surpresa para o inimigo com métodos de surpresa e emboscada. Outra condição de luta da guerrilha nesta fase consistiria na ofensiva para o aniquilamento das forças do inimigo.

Os fatores para a sobrevivência da guerrilha são seus objetivos políticos, o método de condução da luta armada e sua estreita ligação com o povo.

Os objetivos políticos deveriam ser procurar despertar nos camponeses a repercussão de suas ações revolucionárias e tornar conhecido para o povo o objetivo da guerrilha que é a expulsão do imperialismo dos Estados Unidos e a destruição da ditadura militar. Para alcançar isso, a guerrilha deveria contar com o aparelhamento de organizações e pontos de apoio por todo o país.

Quanto aos métodos de luta armada era necessário sair de uma situação de inferioridade para superioridade das forças do inimigo.

 Subordinar todas as ações de combate à lei básica da guerra que é aniquilar as forças do inimigo e preservar as forças da guerrilha.

a              Jamais esquecer o princípio de combinar ofensiva e retirada.

b              Toda a operação estratégica deve ser bem planejada

c              O objetivo da estratégia é aniquilar o inimigo e não resolver problemas econômicos no curso da guerrilha. Jamais devemos fixar bases, ocupar ou defender território.

d              Deve-se deixar ao inimigo a tarefa de defender suas bases fixas e territórios ameaçados de incursão.

e              Combates, ações de surpresa, emboscadas e pequenas manobras têm como objetivo capturar armas.

f               A norma da conduta da guerrilha é o permanente deslocamento; favorecido pela extensão do país e a diversidade de condições do território.

g              A guerrilha deveria exigir vigilância e rigoroso cumprimento de normas.

 

A guerrilha deveria ser honesta, respeitar o povo e jamais desrespeitar seus interesses; a guerrilha deve viver e nutrir-se no meio dos camponeses, respeitando seus costumes e explicando o caráter de classe do inimigo, o papel da guerrilha e seu objetivo político. Organizar entre os camponeses o trabalho de informação e apoio logístico. A guerrilha deveria evitar atos de banditismo ou juntar-se aos bandidos.

A terceira e última fase da guerra revolucionária é o crescimento da guerrilha e sua transformação em guerra de manobras onde ocorreria o aniquilamento definitivo do inimigo. Para que isso fosse possível primeiro seria necessário o crescimento político da guerrilha: quando o objetivo político da luta revolucionária seria conhecido de todo o povo e não mais de um número limitado de pessoas.

Ocorre o crescimento do poder de fogo da guerrilha:

Com o sucesso das formas de ações de combate da Segunda fase, a guerrilha passa a ter novos tipos de armas. Melhora a qualidade do armamento. Pode dispor de mais animais de transporte, chegar à motorização e a operações com aviação. Melhora o serviço de comunicações e informações e de socorro médico. Consolida-se a rádio rebelde clandestina, cuja instalação pode fazer parte da fase anterior da luta. Aumenta a experiência da guerrilha. Seu heroísmo, perseverança e capacidade combativa se reforçam. (Marighella, 1967)

 Quando aumenta a potência de fogo, a guerrilha deve passar de uma situação de pouca capacidade de fogo para uma situação de estender o poder de fogo. Aumentar o espírito combativo da guerrilha e fazer vacilar o espírito combativo do inimigo.

Na fase final da guerrilha aparecerá a retaguarda interna e externa: a interna é um apoio logístico complementar da guerrilha, a retaguarda externa será o apoio logístico de países socialistas, as forças de países do Terceiro Mundo e as forças progressistas de países capitalistas. O abastecimento da guerrilha se transformará num sistema regular de abastecimento.

Para Marighella, nessa fase seria necessário criar um exército revolucionário capaz de aniquilar as forças armadas, destruir o aparato burocrático-militar do Estado brasileiro, substituindo-o pelo povo armado. 

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O crescimento da guerrilha em prestígio político, potência de fogo e apoio de massas produz modificações no curso da luta, atingindo a organização militar, os métodos de conduzir a guerra, as ações de combate e o emprego das forças da guerrilha. (Marighella, 1967)

A guerrilha passaria de uma organização de grupos guerrilheiros para um exército revolucionário fundado na aliança de operários e camponeses com a participação de estudantes e intelectuais.

Haveria na terceira fase uma mudança na forma principal de ação de combate, não haveria mais ações de surpresa, mas sim ações de manobras. Seria possível nesse estágio concentrar forças em um determinado local e deslocá-las para aniquilar o inimigo com operações de cerco e aniquilamento. Nessa fase da guerrilha seria preciso estar atento a dois princípios: Não apenas avançar, mas admitir a retirada e não expor as forças da guerrilha a um golpe de relevo do inimigo no desfecho da guerra revolucionária.

Para Marighella o apoio do povo era o segredo da vitória. No golpe de 1964 não houve resistência, o imperialismo americano se aproveitou disso e começou a massacrar o povo. Mas a resistência deveria ser feita através da guerrilha que teria o dever de proteger os mais pobres “homens e mulheres de pés descalços”. Expulsar o imperialismo e aniquilar as forças armadas da ditadura, derrubar seu poder e implantar o poder do povo. 

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A guerrilha rural brasileira não devia ocupar terras para não ser obrigada a defender territórios e desviar-se de sua ofensiva estratégica.

A guerrilha brasileira aniquilaria os imperialistas americanos que possuem terras no Brasil e os latifundiários brasileiros, castigando seus capangas. As dívidas dos camponeses seriam perdoadas. A guerrilha deveria formar destacamentos secretos entre a população local. A guerrilha deveria ser o oposto da crueldade, teria que dar tratamento humano aos prisioneiros e socorrer os feridos.

Os militares que individualmente apoiam o povo, deveriam desertar para se unir à guerrilha. O fator decisivo da vitória da guerrilha estaria no apoio do povo, na confiança cega nas massas. O povo deveria se unir pela base, em suas organizações e chegar até às organizações revolucionárias e jamais cair no engodo do tipo da “frente ampla”.

 

Os métodos do Mini-manual do Guerrilheiro Urbano

 MINI-MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO - Documentos Revelados

Na introdução de seu manual de luta, Carlos Marighella define que “baixo qualquer teoria, a obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução” essa frase define bem o período anterior que foi decisivo na sua decisão de partir para a luta armada contra a ditadura, contra os capituladores e o imobilismo do PCB que não via condições de resistir e lutar de forma direta contra o Estado ditatorial brasileiro. Marighella também explica que o fato de assinar este manual é que ele faz parte da experiência de um grupo de pessoas engajadas na luta armada do Brasil, no qual ele está incluído e que apesar de muitos ainda negarem os fatos, havia sim, condições para a luta armada no Brasil e que já havia patriotas preparados para lutar como soldados.

Segundo Mário Magalhães (2012), “Marighella foi o redator, mas de certo modo o mini-manual teve elaboração coletiva, ao compartilhar o aprendizado do GTA paulista. ” O paradoxo de Marighella era que ele tinha um objetivo central de estabelecer a guerrilha no campo, mas adquiriu know-how na cidade devido à demora em implantar seu projeto prioritário.

O guerrilheiro urbano na definição de Marighella é de um homem que luta contra a ditadura militar com armas, usando métodos não convencionais. Sua área de atuação são as cidades, como há muitos delinquentes nas grandes cidades, os assaltos realizados pelos bandidos comuns são confundidos com ações de guerrilheiros urbanos. No entanto, o delinquente se beneficia pessoalmente por suas ações e ataca exploradores e explorados, enquanto “o guerrilheiro urbano segue uma meta política e somente ataca o governo, os grandes capitalistas e os imperialistas norte-americanos. ” (Marighella, 1969). Assim, Marighella delimita o caráter de classe da guerrilha e a ação do guerrilheiro urbano que não existe para conseguir benefícios individuais, mas para preparar a guerra revolucionária para a transformação social brasileira, além de suas ações serem executadas tendo como alvo as classes dominantes.

Marighella advertia que outro elemento que também atuava nas cidades eram os contra revolucionários direitistas que executavam assaltos, sequestravam, jogavam bombas, assassinavam e cometiam crimes contra os guerrilheiros urbanos, sacerdotes revolucionários, estudantes e cidadãos que faziam oposição ao fascismo do regime militar. Ele estava se referindo aos grupos paramilitares de extrema-direita. Em seu artigo Chamamento ao Povo Brasileiro, Marighella denunciou a cumplicidade da ditadura com esses grupos:

As organizações ultradireitistas assaltam, atiram bombas, matam, sequestram. Contudo, ninguém tem o conhecimento de que o governo esteja perseguindo sequer um dos assaltantes ou terroristas do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). (Marighella, 1968)

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Segundo Leopoldo Paulino, entre os líderes do CCC, destacava-se o estudante do Mackenzie Borys Casoy, que mais tarde se tornaria um famoso jornalista (Paulino, 2008, p. 91).

O principal trabalho do guerrilheiro urbano é destruir, cansar e desmoralizar os militares, a ditadura militar e as forças repressivas, como também atacar e destruir as riquezas da alta burguesia e dos gerentes estrangeiros norte-americanos.

O guerrilheiro urbano não teme destruir o presente sistema econômico, político e social brasileiro pois sua meta é ajudar o guerrilheiro rural na criação de um sistema totalmente novo e uma estrutura com as massas armadas no poder.

O guerrilheiro urbano precisa ser bom taticamente e seu um líder hábil; precisa usar documentos falsos quando for uma pessoa sentenciada ou está em liberdade condicional; os militares atuam a favor do inimigo, enquanto o guerrilheiro atua a favor do povo; o guerrilheiro urbano tem poucas armas em relação ao inimigo, mas possui uma superioridade moral, graças a ela o guerrilheiro urbano pode levar seu trabalho principal: atacar e sobreviver.

O guerrilheiro urbano toma e desvia armas do inimigo para poder lutar, possui um problema por ter uma grande variedade de armas e pouca munição, além da falta de um local para treinar tiro, para superar esses problemas o guerrilheiro urbano precisa ser imaginativo e criativo.

O guerrilheiro urbano precisa ter iniciativa, mobilidade e flexibilidade, versatilidade e comando para qualquer situação. É impossível prever tudo que pode acontecer, portanto, o guerrilheiro urbano não pode se confundir e esperar por ordens. Ele precisa ter decisão de atuar para resolver os problemas da guerrilha. “É melhor cometer erros atuando do que não fazer nada. Sem iniciativa não pode haver guerrilha urbana. ” (Marighella, 1969)

O guerrilheiro urbano também precisa ser resistente, saber se esconder, ter paciência ilimitada e não deixar rastros. A guerrilha urbana é uma promessa que o guerrilheiro faz a si mesmo, quando não pode mais resistir às dificuldades ou lhe faltar paciência, o guerrilheiro precisa deixar voluntariamente seu posto antes, já que lhe faltam as qualidades básicas necessárias para ser um guerrilheiro.

Segundo Mário Magalhães o lutador pretendido por Marighella não parece um ser humano, mas um super-herói:

 

“O guerrilheiro urbano caracteriza-se pela bravura e o espírito de decisão, Deve ser um grande tático e um bom atirador”. “Outras qualidades importantes [...] são as seguintes: ser andarilho, resistir ao cansaço, à fome, à chuva, ao calor. Saber esconder-se e vigiar. Dominar a arte de disfarçar-se. Jamais temer o perigo. Atuar tão bem de dia como de noite. Não se precipitar. Possuir ilimitada paciência. Manter a calma e o sangue-frio nas piores condições e situações. Nunca deixar rastros ou pistas. Não desanimar. ” (Magalhães, 2012)

 

No entanto, ao mesmo tempo que descrevia um guerrilheiro utópico, Marighella não cobrava demais de quem se dispusesse a ingressar na luta armada contra a ditadura: uma forma de aprender a atirar poderia ser feita mesmo nas barracas de tiro ao alvo em parques de diversões.

No capítulo sobre a “subsistência do guerrilheiro urbano” Marighella afirma que o guerrilheiro precisa manter uma vida normal, no entanto, há um grande paradoxo: as ações armadas contra a ditadura e a burguesia fariam com que o revolucionário não conseguisse manter seu disfarce por muito tempo e a ida definitiva para a clandestinidade seria inevitável.

Marighella afirma que o guerrilheiro urbano precisa aparentar ter uma vida normal e saber conviver com pessoas comuns, é necessário ter atenção com as roupas, pois pode ser necessário se deslocar por bairros onde aquele determinado tipo de roupa não é comum. Caso o guerrilheiro seja conhecido ou procurado pela polícia ele deve viver na clandestinidade e não pode contar suas atividades a ninguém. O guerrilheiro precisa estar bem informado de tudo que ocorre na área em que opera e se movimenta e, em particular a respeito dos movimentos do inimigo. Mas a característica principal do guerrilheiro urbano é lutar com armas, esse fato faz com que o guerrilheiro dificilmente consiga manter a profissão normal por muito tempo, já que é inevitável e esperado o conflito contra objetivos essenciais que são: a) extermínio físico de chefes e assistentes das forças armadas e da polícia; b) A expropriação de recursos do governo e aqueles que pertencem aos grandes capitalistas, latifundiários e imperialistas para o sustento da revolução.

No capítulo sobre a preparação técnica do Guerrilheiro Urbano, Marighella descreve uma longa lista de técnicas que um guerrilheiro urbano precisava adquirir. Tal quantidade de técnicas seria impensável para uma pessoa comum adquirir em tempos de democracia, difícil imaginar o tamanho da dificuldade de aprender todas essas habilidades em tempos de ditadura e perseguição política, sem deixar rastros.

Marighella afirmava que a preparação técnica do guerrilheiro urbano se baseia na sua preparação física, seu conhecimento e no aprendizado de profissões e habilidades de todas as classes, particularmente as atividades manuais. Praticar vários tipos de luta, saber ataque e defesa pessoal.

Aprender a pilotar avião, manejar botes, rádio, mecânica, telefone, eletricidade e ter algum conhecimento de eletrônica. Também é importante conhecer topografia, calcular distância, fazer mapas e planos, desenhar escalas, calcular tempos, trabalhar com escalonamentos, compassos etc. O guerrilheiro urbano também precisa ter conhecimento de química e de combinação de cores, domínio na arte de copiar letras em conjunto com outras habilidades, pois será obrigado a falsificar documentos.

O guerrilheiro urbano tem o papel especial se for doutor ou entender de medicina, enfermaria, farmacologia, drogas, cirurgia elementar e primeiros socorros de emergência.

A questão básica na preparação técnica do guerrilheiro urbano é o manejo de armas. Conhecimento em explosivos é outro aspecto a considerar. A dinamite tem que ser bem entendida. O uso de bombas incendiárias, de fumaça e de outros tipos são conhecimentos indispensáveis.

Aprender a fazer e a construir armas, preparar bombas caseiras e como destruir pontes e trilhos são conhecimentos técnicos indispensáveis para a preparação do guerrilheiro.

O nível mais alto de preparação do guerrilheiro é o centro de treinamento técnico. Mas somente o guerrilheiro urbano que passou pela prova de fogo da ação revolucionária contra o inimigo, pode atender a esta escola.

Carlos Marighella acreditava que o tiro era a razão de existir do guerrilheiro urbano, por isso dedicou três capítulos de seu manual às Armas, ao Tiro e à preparação dos chamados “Grupos de Fogo”, responsáveis por realizar as operações de ataque da guerrilha urbana.

As armas do guerrilheiro urbano são armas leves que podem ser facilmente trocadas, capturadas do inimigo, compradas ou feitas no momento. Armas leves tem a vantagem de ser de manejo rápido e fácil transporte. As armas automáticas e semiautomáticas aumentam consideravelmente o poder de fogo do guerrilheiro, a desvantagem é a dificuldade de encontrá-la que acaba gerando desperdício de munições, só compensado pela boa pontaria do guerrilheiro urbano, caso o guerrilheiro não tenha boa pontaria a arma automática se torna um dreno de munições. A arma básica do guerrilheiro urbano é a metralhadora leve que além de fácil disparo, numa área urbana tem a vantagem de ser muito respeitada pelo inimigo. As armas caseiras, muitas vezes, podem ser tão eficientes quanto as fabricadas. O papel do guerrilheiro urbano como produtor de armas é fundamental. O trabalho de metalurgia e torno são habilidades básicas do guerrilheiro urbano. Coquetéis Molotov, artefatos caseiros e convencionais também são necessários para a missão do guerrilheiro urbano. Os materiais necessários e munições devem ser comprados ou tomados à força por meio de ação armada. A inovação no uso da metralhadora em assaltos à banco aumentou o poder dos guerrilheiros urbanos.

O grupo de fogo que utiliza armas uniformes e munições correspondentes, com apoio razoável para seu mantimento, alcançará considerável eficiência. O guerrilheiro urbano aumenta sua eficiência a medida que aumenta seu potencial de tiro. (Marighella, 1969)

Segundo Mário Magalhães (2012), Marighella recomendava esses métodos de sua experiência no GTA Paulista. Foi lá que ele adquiriu experiência para saber que é mais eficiente usar metralhadoras leves e seu grupo de fogo era formado por quatro a cinco pessoas, assim como descrito no manual. A sigla GTA significa Grupo Tático Armado.

A razão básica do guerrilheiro urbano é saber atirar. Ele deve atirar primeiro e não desperdiçar munições pois luta um combate não convencional, uma luta à curta distância. Não tem muita munição, nem tempo para recarregar, além de fazer parte de um pequeno grupo de guerrilheiros onde cada um cuida de si mesmo. O guerrilheiro urbano não pode atirar continuamente, pois o inimigo pode estar esperando justamente isso, que o guerrilheiro atire até suas balas acabarem. Apesar do fator surpresa, que faz com que muitas vezes o guerrilheiro urbano não precise usar suas armas, não se pode mandar um guerrilheiro para uma ação sem que ele saiba atirar, cara a cara com o inimigo, é preciso movimentar-se constantemente, pois ficar numa só posição o torna um alvo fixo e por isso, mais vulnerável. A pontaria precisa ser treinada até que se torne um reflexo para o guerrilheiro urbano.

Tiro e pontaria são água e ar de um guerrilheiro urbano. Sua perfeição na arte de atirar o fazem um tipo especial de guerrilheiro urbano - ou seja, um franco-atirador, uma categoria de combatente solitário indispensável em ações isoladas. O franco-atirador sabe como atirar, a pouca distância ou a longa distância e suas armas são apropriadas para qualquer tipo de disparo. (Marighella, 1969)

 Como podemos ver Marighella deixa claro que a pontaria era fundamental devido à escassez de armamentos que a guerrilha possuía. Outro aspecto fundamental é que dentro do grupo de fogo cada um cuida de si mesmo, por isso era necessário ter iniciativa e poder de decisão em situações extremas. Marighella expõem no manual o funcionamento do Grupo de Fogo da guerrilha:

Para poder funcionar, o guerrilheiro urbano tem que estar organizado em pequenos grupos, dirigidos e coordenados por uma ou duas pessoas, isto é o que constitui um grupo de fogo. (Marighella, 1969)

Deve haver plena confiança entre os camaradas e o que melhor sabe atirar e manejar a metralhadora deve ser encarregado das operações. Se existirem tarefas planejadas pelo comando estratégico, essas tarefas são preferenciais, mas não há grupo de fogo sem sua própria iniciativa. É necessário evitar a rigidez do estilo esquerdista tradicional de organização. Nenhum grupo de fogo deve permanecer inativo esperando ordens de “cima”. Esse método elimina a necessidade de conhecer quem está executando a ação e o único ponto de importância é aumentar substancialmente a atividade guerrilheira para desgastar o inimigo.

O comando geral conta com o grupo de fogo para realizar seus objetivos de natureza estratégica e para fazê-lo em qualquer parte do país. Por sua parte, ajuda aos grupos de fogo com suas dificuldades e necessidades”. (Marighella, 1969)

Marighella superestimou esta estratégia fragmentada de ações armadas, segundo ele, a organização seria uma rede indestrutível de grupos de fogo que funcionava com o comando geral que também participava de ataques; esta organização existia com o único propósito, simples e puro de ação revolucionária.

Segundo Magalhães (2012), Marighella destoava de sua auto-classificação como um marxista-leninista, que era o avesso da autonomia anárquica que preconizava. Segundo José Luiz Del Rojo da ALN e Jacob Gorender do PCBR, Marighella parece ter se influenciado pelo anarquista francês Georges Sorel, um arauto da violência revolucionária.

Segundo Magalhães (2012), o minimanual do guerrilheiro urbano omitia procedimentos que a clandestinidade já testara. Não falava sobre inconfidências ao telefone ou tempo de esperar num ponto onde um companheiro não aparecia. Ignorou a temeridade de usar documento falso catalogado pela repressão, que era o que Marighella fazia com a carteira de Mário Reis Barros, usada em 1968 para comprar um carro antes do assalto ao trem-pagador do Ipeg. A abordagem da tortura no livro era uma ilusão pois Marighella dizia ”O guerrilheiro preso nada pode revelar à polícia que prejudique a organização”. Pois quase todos tinham seus limites e não bastava valentia para suportar a tortura.

Outra lacuna do Mini-manual do Guerrilheiro Urbano dizia respeito aos esconderijos:

Marighella considerou que ”a logística convencional pode exprimir-se pela fórmula CCEM, que quer dizer comida, combustível, equipamentos e munições”. “Para o guerrilheiro urbano, que parte da estaca zero e não dispõe inicialmente de nenhum apoio, sua logística expressa-se sob a fórmula MDAME, que quer dizer motorização, dinheiro, armas, munições e explosivos. ” Mais correto seria o acrônimo MADAME: faltou o A, de aparelho. Marighella sabia que o Dops carioca vasculhava apartamentos alugados por temporada na zona sul, mas não alertou para a ameaça. Nem condenou a exposição de residências a outros militantes (...) (Magalhães,2012)

       Mas apesar das fragilidades, nunca se fez manual de guerrilha urbana melhor do que Marighella, como opinou o general-de-brigada Durval Andrade Nery que flagrou o exemplar do manual na Escola das Américas no Panamá.

A mecânica é inseparável do motorista. O motorista da guerrilha urbana é tão importante quanto o especialista em metralhadora, pois sem eles, tanto a arma quanto o veículo são objetos mortos. Todo guerrilheiro urbano precisa ser um bom motorista e expropriar um veículo quando necessário. O seu aprendizado tem que começar cedo pois ele não se torna um bom motorista num só dia.

O guerrilheiro urbano precisa expropriar bancos e lojas de armas para conseguir dinheiro e munições. Quando o assalto é por dinheiro, armas também são tomadas. A expropriação é o primeiro passo para a logística. O segundo passo é reforçar essa logística pegando o inimigo em armadilhas e emboscadas e capturando suas armas, munições e veículos. Uma vez que o guerrilheiro urbano tenha armas, munições, explosivos, um dos problemas mais sérios é encontrar um esconderijo no qual deixar material e transportá-lo e montá-lo onde for necessário. Mesmo se o inimigo estiver vigiando estradas.

O conhecimento que tem o guerrilheiro urbano do terreno, e os aparelhos que utiliza ou é capaz de utilizar, tais como os guias preparados especialmente e recrutados para esta missão, são os elementos básicos na solução do problema eterno de logística das forças revolucionárias. (Marighella, 1969)

Para Marighella a Técnica do Guerrilheiro Urbano consistia em realizar a guerra de guerrilha e a guerra psicológica.

Sobre as Características das técnicas das Guerrilhas, Marighella deixava claro que o papel da guerrilha era manter a ofensiva e não poderia sobreviver se permanecesse por muito tempo em um mesmo local:

A guerrilha urbana é uma técnica agressiva, já que somos inferiores ao inimigo e não temos seu recurso e seu poderio, não podemos defender uma base fixa por muito tempo de um ataque concentrado do exército, a ação defensiva significa morte para nós. (Marighella, 1969)

A função da guerrilha urbana não seria, então, tomar território como numa guerra convencional, mas desgastar, desmoralizar e distrair o inimigo, permitindo o desenvolvimento e a sobrevivência da guerrilha rural.

Sobre a vantagem inicial da guerrilha, Marighella dizia que a dinâmica das guerrilhas urbanas consiste em violentos choques do guerrilheiro urbano com as forças militares e policiais da ditadura. O paradoxo é que o lado mais fraco, a guerrilha, é o atacante.

As forças militares respondem aos ataques com mobilização e concentração de forças, perseguição e destruição das forças guerrilheiras. Somente pode-se evitar a derrota, se compensar suas vulnerabilidades e falta de material. As vantagens iniciais são: tomar o inimigo de surpresa; conhecer o terreno melhor que o inimigo; tem maior mobilidade e velocidade que as forças repressoras; seu serviço de informação tem que ser melhor que o do inimigo; demonstrar confiança, não pensar em hesitar.

Sobre os objetivos das ações da guerrilha, Marighella afirma que o guerrilheiro urbano se baseia em modelos de ação que o conduzem a atacar os seguintes objetivos:

 

a      Atacar o triângulo no qual os sistemas de dominação são mantidos no Brasil: Rio, São Paulo e Belo Horizonte cuja base é o eixo Rio-São Paulo.

b      Debilitar os guardas locais e o sistema de segurança da ditadura, capturando as forças governamentais em situação defensiva.

c       Atacar por todos os lados, em pequenos grupos, cada um independente e operando por separado, para dispersar as forças do governo.

d      Provar sua combatividade, decisão, firmeza, determinação e persistência no ataque contra a ditadura para que todos os inconformados sigam o exemplo do guerrilheiro e lutem com táticas de guerrilha urbana.

e      Aumentar os distúrbios de modo que as tropas do governo não possam deixar a área urbana para perseguir o guerrilheiro, e permitir que aumente a rebelião na costa como também no interior do país.

f        Aumentar a tensão do inimigo nas barracas.

g      Evitar batalhas abertas e combate decisivo, limitando a luta a ataques rápidos.

h      Assegurar a liberdade de ação e movimento do guerrilheiro urbano, até o início da guerrilha rural e apoiando a construção de um exército revolucionário para a libertação nacional.

i        (Marighella, 1969)

            Sobre os Tipos e Natureza de Modelos de Ação para os Guerrilheiros Urbanos, Marighella afirmava que o guerrilheiro urbano não escolhe arbitrariamente este ou aquele modelo de ação. O guerrilheiro urbano sem experiência tem que ser incorporado gradualmente em ações ou operações que correm desde as mais simples até as mais complicadas. Começa com missões e trabalhos pequenos até se converter completamente em um guerrilheiro urbano com experiência.

 

Marighella e os princípios norteadores da Ação Libertadora Nacional

 

Segundo Jacob Gorender (2014), Carlos Marighella foi um revolucionário que conjugou dinamismo de revolucionário prático e uma produção literária exuberante. Em seu escrito A Crise Brasileira, Marighella fez críticas à direção do PCB, contra as ilusões na “tradição democrática” das Forças Armadas e o vício de só confiar nos entendimentos de cúpula com a oposição burguesa, nos jogos eleitoreiros e parlamentares. O primeiro princípio é a ação. É a ação que faz a guerrilha e a desenvolve. Ação significa violência revolucionária, luta armada, guerrilha. As necessidades teóricas do presente já estariam cumpridas pelo leninismo e pelo castrismo, nada havia a acrescentar.

Gorender afirma que essa atitude anti teoricista e de exaltação da violência colocava a ALN na mesma linha do anarcossindicalismo de Georges Sorel. A violência era situada no plano dos valores incondicionais alheia às determinações históricas. Embora a ALN tivesse no princípio um setor de aproximação com as massas. Esse setor desapareceu.

A organização revolucionária consistia de grupos com inteira liberdade de iniciativa. Os comandos ou coordenações só existiam para articular ações de maior envergadura, que envolvem a necessidade de mais de um grupo.

A ALN herdou do PCB a teoria de revolução por duas etapas. A primeira etapa seria de libertação nacional e a segunda etapa seria a revolução socialista.

A guerrilha rural se tornou estratégica. Além disso, Marighella se declarou contrário à teoria dos focos e apresentou a tarefa das colunas guerrilheiras móveis, que se deslocariam contando com pontos de apoio de antemão assentados. Mas, segundo Gorender (2014), o foquismo se mantém na medida que a guerrilha começa do zero, dissociada de qualquer movimento de massas e incorpora a vanguarda política.

Antes considerada inviável, a guerrilha urbana se valorizou como tarefa tática. O perfil do guerrilheiro da ALN passava a ser ter aptidão para a ação armada. Na participação direta ou em tarefas logísticas. Afastavam-se aqueles que não se adaptam ao esquema da organização militarizada. Esse tipo de organização afastava aqueles que não queriam ou não tinham aptidão para a violência e o combate direto contra o os agentes do aparato repressivo ditatorial, pois não havia mais espaço para dúvidas e vacilações. Na linha de combate da guerrilha era matar ou morrer.

 

A Esquerda Radical e o Movimento Operário

 

Apesar do fechamento do regime militar e do cerco policial, muitas organizações de Esquerda continuaram a manter vínculos com o movimento operário.

No manual do guerrilheiro urbano há um capítulo sobre Greves e Interrupções de Trabalho, lá são explicadas como o guerrilheiro precisa atuar numa greve:

A greve é o modelo de ação empregado pelo guerrilheiro urbano em centros de trabalho e escolas para prejudicar o inimigo por meio da detenção do trabalho e das atividades de estudo. Já que é uma das armas mais temidas pelos exploradores e opressores, o inimigo utiliza um tremendo poder ofensivo e incrível violência contra. Os grevistas são levados à prisão, sofrem golpes, e muitos terminam assassinados.

O guerrilheiro urbano precisa preparar a greve em segredo para que não deixe pistas sobre os líderes da ação. A greve é bem-sucedida quando organizada por um grupo pequeno. (Marighella, 1969)

Marighella também afirma no manual que explosivos podem ser utilizados: Armas e explosivos precisam ser supridos previamente, se adiantando ao inimigo.

O objetivo da greve poderia ser para tomar reféns, capturar prisioneiros ou agentes inimigos e propor a troca por grevistas presos. A greve pode servir para a preparação de armadilhas e emboscadas para a destruição física da polícia.

O primeiro sinal da participação da esquerda armada no movimento sindical veio de uma greve de cortadores de cana no município do Cabo, em Pernambuco. Militantes da Corrente Revolucionária do PCB e o PCR fizeram trabalho clandestino no meio desses trabalhadores pobres.

A primeira irrupção de grande estilo ocorreu na greve de Contagem, cidade industrial de Belo Horizonte.

Desde 1967 a agitação operária se acentuava com despedidas maciças, falências de pequenas empresas, atrasos de pagamentos e protestos contra o rebaixamento salarial. Nas eleições de 1968 para o Sindicato dos Metalúrgicos, o Ministério do Trabalho vetou o presidente Ênio Seabra, mas as organizações de esquerda não perderam o controle dos sindicatos. A AP, Corrente Revolucionária e COLINA se uniram e multiplicaram a agitação dentro das fábricas, editaram pequenos jornais e panfletos. Além de criarem um “grupo dos cinco” que conseguem precariamente ter uma certa penetração. As organizações de esquerda usaram os recursos organizativos do Sindicato dos Metalúrgicos, evitando fazer atos ostensivos para evitar um pretexto para intervenção do Ministério do Trabalho.

       Em abril de 1968 cerca de 1200 empregados da siderúrgica Belgo Mineira paralisaram sua atividade e se reuniram no sindicato. Em poucos dias os grevistas eram mais de 16 mil unidos pela reivindicação de reajuste salarial acima do teto de 17%. O tamanho dos movimentos fez com que o Ministro do Trabalho Jarbas Passarinho fosse até Belo Horizonte para fazer negociações, algo incomum dentro do regime. Por fim, Costa e Silva aceitou conceder 10% de abono. Com essa reivindicação parcialmente atendida, a greve se encerrou em 2 de maio.

EM 1968, GREVES METALÚRGICAS SURPREENDERAM A DITADURA MILITAR - Documentos  Revelados

       Os acontecimentos de Contagem inspiraram as organizações da Esquerda Radical com vistas de uma preparação de uma greve geral em outubro e novembro, meses onde coincidem dissídios dos bancários e metalúrgicos. 

Nos 50 anos de 1968, relembre 11 fatos que abalaram o mundo

       O MIA (Movimento Intersindical Antiarrocho, criado em 1967) convocou um comício na Praça da Sé e convidou o governador de Minas Gerais Abreu Sodré. No dia 1º de maio de 1968 havia uma multidão de seis a quinze mil. Não era um público comum. As organizações de esquerda decidiram expulsar o governador da praça. Instruíram os militantes e simpatizantes, municiados com pedras, estilingues, bastões, ovos podres, além de recipientes com leite e amoníaco para se proteger no caso de bombas de gás lacrimogêneo. No meio da multidão havia militantes de organizações clandestinas ainda em circulação local. Assim que o governador subiu no palanque acompanhado dos membros de seu governo, pelegos e sindicalistas do PCB. O governador teve que se retirar ajudado por auxiliares com ferimentos na testa. Os trabalhadores romperam o cordão policial e incendiaram o palanque. 

O 1º de Maio de 1968 na Sé, em São Paulo - Memória Sindical

A expulsão do governador animou os operários que fizeram breves paralisações em desacordo com os sindicatos dominados por pelegos. O grupo informal de Osasco, ligado à VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), desencadeou uma greve local que antecipou a greve geral. Na presidência do sindicato dos metalúrgicos de Osasco estava José Ibrahim, ex-brizolista, então, ligado à VPR. No dia 16 de julho, os operários da COBRASMA paralisaram os trabalhos, ocuparam a fábrica e prenderam dezesseis engenheiros e diretores.

A greve se estendeu a outras empresas num total de dez mil participantes reivindicando o reajuste salarial de 35%, reajustes trimestrais e contrato coletivo de dois anos. Dessa vez Costa e Silva não se dispôs a negociar e fazer concessões. Sob o comando do governador Sodré e do Ministro Jarbas Passarinho, os policiais fizeram cerca de quinhentas prisões. A Força Pública invadiu a COBRASMA, libertou os administradores e expulsou os grevistas. O sindicato dos metalúrgicos sofreu intervenção e Osasco virou uma praça de guerra. A greve só resistiu até o quinto dia útil. José Ibrahim caiu na clandestinidade e o líder dos operários Zequinha, caiu no DEOPS, castigado com prisão e tortura. A precipitação e a derrota acabaram com o plano de greve geral. Uma tentativa de greve ocorreu em Contagem, mas durou apenas um dia.

 

A imersão da esquerda radical na luta armada

 

No início de 1969 a ALN e a VPR concluíram que a luta armada se tornou via acertada devido ao fechamento da ditadura. Não havia resposta possível além das armas. As vanguardas não poderiam ser partidos políticos com braços armados, mas organizações totalmente militarizadas voltadas para a tarefa da luta armada.

A VPR e COLINA (Comando de Libertação Nacional) se fundiram dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Na ALN, após a morte de Marquito (Marco Antônio Braz de Carvalho), o GTA se reconstituiu sob o comando de Virgílio Gomes da Silva (Jonas), ex-operário da Nitroquímica. O grupo chegou a ter 40 guerrilheiros e se dividiu em dois subgrupos liderados por Carlos Eduardo Pires Fleury e por Takao Amano. O ritmo das expropriações e da propaganda armada foi intensificado.  O aumento dos quadros de combate na ALN se deu devido ao regresso dos guerrilheiros que foram treinar em Cuba, isso levou à constituição de um segundo GTA em São Paulo. A organização também crescia na Guanabara e em outros Estados.

A Ala Vermelha praticou três assaltos à agências bancárias, confisco de dinamite de uma pedreira e expropriação de máquinas gráficas da Loja Kelmaq, visando montar uma oficina clandestina. Em 1º de maio de 1969, a Ala Vermelha ocupou uma rádio em São Bernardo e difundiu uma proclamação.

A DI - Dissidência Guanabara criou um Grupo de Trabalhos Especiais (GTE) estruturado para a guerrilha urbana. Obteve fundos através de assaltos a agências bancárias, a um carro de transporte de valores na Rua Farme de Amoedo, em Ipanema e até a um bar do Castelinho durante o mês do carnaval. O GTE também expropriou trinta mil dólares e joias no apartamento do deputado federal Edgar Guimarães de Almeida em 19 de agosto de 1969, onde seus membros entraram disfarçados de repórteres da revista Realidade. O arsenal disponível avolumou-se com armas arrancadas de sentinelas e patrulhas policiais.

A pressão por expropriações provocou aguda luta interna e divisões dentro do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores). Vinicius Caldeira Brant tomou posição contrária às expropriações, Vinícius conseguiu afastar seu setor da luta armada, porém, não conseguiu impedir que outro setor se lançasse no no círculo vicioso dos assaltos e outras ações armadas.

No PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) o começo da luta armada partiu do Comitê Regional de Pernambuco, um grupo de fogo se deslocou para João Pessoa e, em maio de 1969, tomou de dois funcionários do Banco da Lavoura a valise com um depósito da Companhia Souza Cruz. No Recife ocorreu um ato de propaganda armada com a explosão do palanque que seria preparado pelas autoridades no desfile de 7 de setembro. Em 10 de outubro de 1969 o assalto a um transportador de dinheiro da Souza Cruz provocou a trágica morte do funcionário Nilson Lins. As ações autônomas do pessoal do Nordeste suscitaram na militância do PCBR da Guanabara e do Estado do Rio sentimentos de inação e frustração. Afinal quebrou-se a resistência dos militantes e o PCBR assaltou a agência do Banco Sotto Maior, no bairro carioca da Penha. O assalto teve êxito mas a retirada falhou, na troca de tiros com uma radiopatrulha, um policial foi morto e o motorista do PCBR foi preso. A polícia recuperou o dinheiro roubado e em seguida começaram as prisões em cascata.

 

Assaltos à banco - O modelo mais popular de expropriação revolucionária

 

O minimanual do guerrilheiro urbano define assalto como ataque armado com o qual se faz expropriações, libertação de prisioneiros, tomada de armas e munições.

Em dezembro de 1967 a ALN começou a praticar assaltos com o intuito de conseguir fundos. A primeira ação interceptou um carro transportador de dinheiro no bairro paulistano de Santo Amaro. No comando da ação, Marighella recolheu o dinheiro do assalto. Seguiram-se outros assaltos à bancos, a expropriação do carro pagador da Massey Fergunson, a tomada dos explosivos da Companhia Rochester em Mogi das Cruzes.

O mini-manual recomenda o assalto à noite como mais vantajoso. Assaltos a estabelecimentos são da mesma natureza pois representam um alvo fixo. Mas os assaltos à edifícios variam de acordo com o que são: bancos, negócios comerciais, industrias, acampamentos militares, delegacias, presídios, estações de rádio, armazéns de empresas imperialistas, etc.

Assaltos a carros blindados, trens, barcos, aviões são de outra natureza já que envolvem movimento. Uma das ações armadas mais espetaculares da ALN ocorreu em 10 de agosto de 1968, foi o assalto ao trem pagador da estrada de ferro Santos-Jundiaí.

Os órgãos policiais começaram a ficar desnorteados. A técnica de assaltos era sofisticada e o número deles começou a se elevar substancialmente. No decurso de 1968 os assaltos atingiram na capital paulista, onde agências bancárias, cinco carros pagadores e um trem pagador. Essas ações não foram executadas apenas pela ALN, mas também por outras organizações clandestinas.

O mini-manual do guerrilheiro urbano afirma que os carros blindados não são imunes às minas. A obstrução de estradas, armadilhas, enganos, interceptação de outros veículos, Molotov, atirar com armas pesadas eram métodos recomendados para assaltar veículos.

Durante o ano de 1968 os assaltantes não se identificavam como guerrilheiros. Na opinião de Marighella, era preciso manter o mistério para ganhar tempo e acumular poder de fogo. Assim a polícia pensaria que estava lidando com marginais. O mistério sobre os assaltos acabou em 13 de novembro de 1968 após o assalto ao carro pagador do IPEG (Instituto de Previdência do Estado da Guanabara), o carro foi interceptado por três homens armados que expropriaram 120 mil cruzeiros. Um policial militar reformado reconheceu o carro receptador do dinheiro estacionado num posto de gasolina e avisou à polícia, que prendeu o motorista. Sob tortura, o motorista deu informações sobre a ação, inclusive sobre o envolvimento de Marighella que após notar a ausência do motorista no local combinado, fugiu para um aparelho em Pedra de Guaratiba onde levou o dinheiro confiscado. No entanto, o segredo sobre a autoria das ações deixou de existir. a revista VEJA exibiu o rosto do revolucionário em sua capa. Os órgãos de repressão fizeram dele o inimigo público número um. Os incidentes desastrosos envolvendo o assalto ao carro pagador se seguiram ao acidente que vitimou dois participantes da ação: João Antônio Abi-Eçab e Catarina Helena Xavier Ferreira. O carro deles colidiu com um caminhão, próximo a Vassouras.

A primeira ação armada urbana em que o capitão desertor do Exército Carlos Lamarca participou, ocorreu em 9 de maio de 1969, quando a VPR tomou a rua Piratininga no bairro do Brás, em São Paulo. Os guerrilheiros assaltavam os Bancos Itaú e Mercantil ao mesmo tempo e a função de Lamarca era vigiar e cuidar da segurança dos militantes envolvidos na ação. Na esquina com a rua Visconde de Parnaíba ele vê o guarda civil Orlando Pinto Saraiva apontando a arma em direção ao ex-sargento Darcy Rodrigues. Lamarca, a 30 metros de distância, atira na nuca do guarda que gira e recebe mais um tiro no rosto. Ele corre para o carro de segurança da VPR, pega um fuzil FAL e dispara rajadas para o alto, parando o trânsito na rua. Espera todos os militantes entrarem no carro e vai embora. (José e Miranda, 1984, pp. 54-55)

O mini-manual do guerrilheiro urbano indicava que veículos pesados, aviões em terra, barcos ancorados podem ser tomados e as tripulações capturadas. Aviões em voo podem ser desviados pela ação guerrilheira.

       O sequestro de aviões era uma ação de altíssimo risco. Apesar disso, muitos militantes que se encontravam no Chile quisessem voltar ao Brasil, mesmo que fosse de forma clandestina, alguns militantes se destacaram para tratar dessas viagens. O jovem James Allen da Luz cuidou da viagem de volta de muitos guerrilheiros. No dia 1º de janeiro de 1970 executou a missão de desviar um avião para Cuba a fim de pôr em segurança seis militantes, inclusive ele. O avião iria de Montevidéu para o Rio de Janeiro. Logo após o avião deixar o solo uruguaio, o James Allen entra na cabine e anuncia o sequestro. Ao microfone lê um manifesto e avisa o novo destino do avião. O avião precisaria fazer quatro escalas. A mais tensa foi em Lima, no Peru. O aeroporto foi sitiado por militares armados e tanques de guerra. Longas negociações se seguiram. O governo peruano ofereceu asilo que foi negado pelos guerrilheiros que desconfiavam que seriam executados assim que saíssem do avião. Com a inesperada solidariedade da tripulação, três dias depois chegaram em Havana. Devido ao alto risco, a guerrilha evitou novos sequestros de avião. Apenas dois sequestradores sobreviveram até a anistia de 1979; os outros morreram em perseguições. James Allen continua até hoje na lista de desaparecidos. (Júnior e Souza, 2007, p. 182)

O assalto a banco havia se tornado o método popular, comumente utilizado e que também servia como exame preliminar para um guerrilheiro urbano em processo de aprendizagem.

O manual enfatizava as inovações técnicas no assalto tais como: atirar nos pneus dos carros para evitar que fossem perseguidos, trancar as pessoas nos banheiros dos bancos, obrigá-las a se sentar no chão do banheiro; imobilizar os guardas do banco e tomar o armamento deles, obrigar alguém a abrir a caixa forte; e a utilização de disfarces.

O manual salientava que no assalto a banco o revolucionário está em desvantagem por dois competidores: o delinquente e o contra-revolucionário direitista. Esta competição produz confusão e incerteza na população. Para prevenir isso o revolucionário precisa usar dois métodos: não expropriar a população como fazem os bandidos; e usar o assalto como forma de explicar o propósito do guerrilheiro que é o de expropriar o governo, as classes governantes e o imperialismo.

Segundo Jacob Gorender, a existência de grupos paramilitares de direita se explica porque apesar das ações da esquerda radical, a extrema-direita da ditadura não as julgou suficiente para a criação do clima propício para o fechamento completo do regime militar. Daí a criação de grupos de provocadores sob às ordens de diferentes chefias do alto escalão governamental. Esses paramilitares deveriam executar atentados terroristas com o objetivo de culpar a esquerda armada como a bomba explodida no saguão do edifício do jornal Estado de S. Paulo na rua Quedinho em 20 de abril de 1968.

Nas gravações da Rádio Libertadora, transmitidas ao vivo quando Marighella tomou a Rádio Nacional, o guerrilheiro urbano afirma que:

 

(...) é público e notório que os grupos revolucionários armados assaltam os bancos do país e expropriam os que enriqueceram e exploraram de forma brutal o povo brasileiro. Acabamos a lenda do ouro de Moscou, de Pequim ou de Havana. ” (Marighella, 1969)

 

Segundo Marighella os banqueiros não poderiam se queixar devido aos seus exorbitantes lucros, enquanto o bancário recebia salário mínimo e precisaria trabalhar 25 anos para receber o dobro desse miserável salário. Marighella dizia que o mesmo ocorria com o governo que tinha no poder um político corrupto como Andreazza que tinha apartamento com o valor de um bilhão de cruzeiros velhos, além de receber comissões das firmas estrangeiras.

 

Os sequestros executados pela guerrilha urbana brasileira

 

Segundo o manual do guerrilheiro urbano:

 

Sequestrar é capturar e assegurar em um lugar secreto um agente policial, um espião norte-americano, uma personalidade política ou um notório e perigoso inimigo do movimento revolucionário. (Marighella,1969)

 

Os objetivos dos sequestros era a troca pela libertação de revolucionários presos. Uma das maiores polêmicas do manual é a afirmação de que poderia ser feito o sequestro de artistas famosos, figuras do esporte que não tinham envolvimento político, para fins de propaganda da guerrilha urbana.

Além disso, o manual também afirmava que poderia ser feito o sequestro de residentes norte-americanos ou visitantes como forma de protesto contra a penetração e a dominação do imperialismo dos Estados Unidos no Brasil.

Uma das maiores façanhas da guerrilha brasileira foi o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. O ano era 1969, o congresso estava fechado. Após o afastamento do sucessor, o vice-presidente civil Pedro Aleixo, subiu ao poder uma junta militar formada por três ministros militares: Lyra Tavares (da Guerra), Augusto Radamaker (da Marinha) e Márcio de Souza Mello (da Aeronáutica). 

Sequestro de embaixador no Brasil moldou política externa dos EUA na Guerra  Fria – Jornal da USP

Em plena semana da Pátria, um comando revolucionário sequestrou o embaixador americano. No mesmo dia a Junta recebeu uma mensagem dos sequestradores com as exigências de libertação de 15 políticos em algum lugar seguro no exterior e a divulgação de um manifesto nos jornais e rádios de todo o país. Se uma resposta não fosse dada em 48 horas, Mr. Elbrick seria executado.

O sequestro foi uma ideia da organização Dissidência Guanabara cuja direção era formada por Daniel Aarão Reis Filho, Franklin Martins e Cláudio Torres. Foi a única guerrilha que conseguiu capturar um embaixador dos Estados Unidos. Na Guatemala o sequestro do embaixador americano John Gordon Mein não se desdobrou, pois o embaixador resistiu aos guerrilheiros e foi executado.

O levantamento do local do sequestro foi feito por Vera Sílvia Magalhães que revelou a fragilidade do esquema de segurança do embaixador. Não se julgando preparada para agir sozinha, a Dissidência pediu a colaboração da ALN. Cláudio Torres viajou para São Paulo e fez acordo com Câmara Ferreira. Marighella estava no Rio e não teve conhecimento do que se preparava. No dia 2 de setembro foi para o Rio, Virgílio Gomes da Silva, para assumir o comando militar, e Câmara Ferreira, Manoel Cyrillo de Oliveira e Paulo de Tarso Venceslau.

O grupo tático encarregado de capturar o embaixador era formado por Virgílio Gomes da Silva, Cláudio Torres da Silva, Franklin de Souza Martins, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, Cid Queirós Benjamin, João Lopes Salgado, Vera Silva Magalhães, Paulo de Tarso Venceslau, Sérgio Rubens de Araújo Torres e José Sebastião Rios de Moura.

Em 7 de março de 1970, um membro da coordenação regional da VPR, Mário Japa (Shizuo Ozawa) foi preso depois que o carro derrapou e colidiu, o que o deixou desacordado. Em seu carro havia armas e documentos comprometedores. Mário Japa resistiu a vários dias de tortura no DOEPS, mas o delegado Fleury não desistiu. Era necessário salvar rapidamente o guerrilheiro antes que ele entregasse informações importantes. Houve uma articulação entre as organizações VPR, MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) e REDE. Jamil (Ladislau Dowbor, Devanir e Bacuri entraram em contato para articular o sequestro do cônsul-geral do Japão, Nobuo Okuchi, em São Paulo no dia 12 de março. Feito de improviso, a lista de resgate do sequestro constou apenas com 5 nomes. O governo Médici aceitou as exigências dos guerrilheiros e os presos políticos, incluindo Mário Japa, se libertaram e viajaram para o México.

Em 1º de julho de 1970, um avião Cruzeiro que decolou do Rio para São Paulo foi obrigado a retornar no meio do caminho para o Aeroporto do Galeão por um grupo de jovens armados. Eles se declararam membros do Comando Reinaldo Silveira Pimenta, o nome era de um membro da Dissidência estudantil de Niterói que faleceu em 27 de junho de 1969 após pular de uma janela do quinto andar de um apartamento para fugir de perseguição policial. A exigência era a troca de 40 passageiros por um número igual de presos políticos e garantia de viagem ao exterior. Soldados da Aeronáutica invadiram o avião, mataram um dos membros do comando, Eiraldo Palha Freire e prenderam os outros guerrilheiros: Jesse Jane Vieira de Souza, Fernando Palha Freire e Colombo Vieira de Souza.

O sequestro do embaixador da Alemanha Ocidental Ehrefried von Holleben ocorreu em iniciativa conjunta da VPR com a ALN. O chefe da ação ficou a cargo do guerrilheiro Bacuri que liderou o grupo de fogo responsável pela captura do diplomata no Rio. A ação teve derramamento de sangue, o segurança Irlando de Souza Regis levou um tiro e perdeu a vida. O governo Médici providenciou rapidamente às exigências dos sequestradores e 40 prisioneiros políticos foram levados para o exílio na Argélia.

O alto comando da Frente VPR-ALN planejou um triplo sequestro: a ideia era exigir a libertação de 200 prisioneiros políticos que seriam trocados por um embaixador estrangeiro, um grande empresário brasileiro e um Ministro do governo Médici. O triplo sequestro se encaixaria na ofensiva de propaganda armada na primeira quinzena de novembro, com o objetivo de marcar o aniversário da morte de Marighella e o lançamento da guerrilha rural. Militantes da ALN vindos de Cuba já estavam no Pará a fim de preparar a guerrilha no campo. Bacuri foi agarrado pela equipe do delegado Fleury quando fazia investigação sobre o embaixador inglês, possível alvo do sequestro. Ele foi delatado por dois agentes do CENIMAR infiltrados na ALN carioca. Em setembro a polícia apanhou o grupo da ALN no Pará e anulou o ponto de apoio para a guerrilha rural. Entre os presos estava José da Silva Tavares (Severino) que passou para o lado da polícia. Tavares foi o responsável por entregar informações que ajudaram Fleury a encontrar o guerrilheiro Câmara Ferreira. O líder da ALN caiu nas mãos do Esquadrão da Morte e foi levado para um sítio secreto ao redor de São Paulo onde foi submetido à torturas no pau-de-arara. Apesar de Fleury precisar dele vivo para obter informações, o revolucionário não resistiu e faleceu. O plano do lançamento da guerrilha rural mais uma vez sucumbia. Além disso, Fleury teve acesso ao plano da “Quinzena Marighella” e usou isto como pretexto para fazer uma extensa contraofensiva que encheu as prisões de centenas de pessoas, entre os presos estavam advogados de presos políticos.

Em junho de 1970, durante uma entrevista, Carlos Lamarca respondeu uma pergunta sobre os sequestros:

 

Os sequestros de pessoas continuarão. Até que o governo empregue torturas, os sequestros continuarão, pois estes são, no momento, o único meio que temos para libertar nossos companheiros. Se a tortura é uma instituição da qual a repressão não pode abster-se, assim, também, será com os sequestros. Se os senhores diplomatas estrangeiros podem suportar a companhia dos membros de um governo que emprega a tortura, poderão, também, suportar, por alguns dias, a nossa presença.  (José e Miranda, 1984, p. 93)

 

Em 7 de dezembro de 1970, sob a chefia de Lamarca, o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher foi sequestrado no Rio. Mais uma vez a ação não foi “limpa” pois ocorreu o assassinato de um segurança. Desta vez o governo Médici mudou sua orientação e se recusou a libertar os prisioneiros da primeira lista entregue pela VPR. O governo militar se recusava a soltar presos políticos condenados à prisão perpétua e participantes de sequestros. A atitude obrigou a VPR a propor uma lista substituta cujos nomes também foram rejeitados. Na verdade, o governo buscava ganhar tempo enquanto fazia uma vasta operação de investigação tentando encontrar o cativeiro do embaixador. A atitude incitou um setor da VPR a exigir a execução do embaixador. Carlos Lamarca como chefe da operação, se recusou a “justiçar” o embaixador, afinal, o governo não se recusou a fazer a troca, apenas exigiu mudanças nos nomes da lista. Depois de 40 dias tensos, setenta prisioneiros políticos foram libertados e voaram para o Chile. O diplomata Giovanni Bucher foi solto para voltar à sede da embaixada.

Esse foi o último sequestro, não apenas porque a eficiência deste tipo de ação estava esgotada como porque as organizações de esquerda armada já estavam em processo de liquidação pelo aparelho repressivo militar.

 

Execuções: Ações polêmicas da guerrilha brasileira

 

Os “justiçamentos”, nome que a Esquerda Radical dava aos assassinatos políticos são ações bastante polêmicas e trágicas, que até hoje deixam marcas entre os envolvidos em tais atos de violência revolucionária.

O manual do guerrilheiro urbano explica tal ato da seguinte forma:

 

“Execução é matar um espião norte-americano, um agente da ditadura, um torturador da polícia, ou uma personalidade fascista no governo que está envolvido em crimes e perseguições contra os patriotas, ou de um "dedo duro", informante, agente policial, um provocador da polícia.” (Marighella, 1969)

 

O manual também explica que aqueles que vão à polícia por sua própria vontade para fazer denúncias e acusações, dando pistas à polícia, devem ser executados pela guerrilha quando são pegos.

A execução é uma ação secreta no qual um pequeno número de pessoas estão envolvidas. A execução também poderia ser feita por um francoatirador, trabalhando sozinho e à sangue frio.

Uma das execuções mais conhecidas foi a execução do capitão norte-americano Chales Rodney Chandler. Ele era veterano da guerra do Vietnã e bolsista de uma fundação norte-americana, ele frequentava a Escola de Sociologia e Política. A POLOP - Política Operária, reuniu informações de que se tratava de um agente da CIA. Em 12 de outubro de 1968, um grupo que incluía Pedro Lobo e Marquito, chefe do GTA da ALN, mataram o capitão à tiros quando ele saiu do carro na garagem de sua casa no bairro Sumaré. No momento de seu assassinato Chandler trazia consigo o livro A origem da autocracia comunista, livro de Leonard Shapiro. No livro A Esquerda Armada no Brasil, Pedro Lobo negou a versão de que o capitão foi morto na frente do filho de nove anos. Versão, segundo Lobo, inventada para difamar os guerrilheiros. O ex-guerrilheiro Leopoldo Paulino afirma em seu livro que o grupo responsável pela execução foi delatado pela famosa apresentadora e simpatizante da ditadura, Hebe Camargo, que anotou a placa do carro e descreveu os participantes para os agentes da repressão. (Paulino, 2008, p. 95)

Em abril de 1970 a VPR capturou o tenente Alberto Mendes Jr. no Vale do Ribeira, local onde preparava um campo de treinamento guerrilheiro. Lamarca e seu grupo precisavam escapar do cerco do Exército. Diferente de um exército regular, a guerrilha não tem como guardar prisioneiros. A norma costumar ser desarmar e liberar o preso, no entanto, havia um problema: caso soltassem o tenente, a guerrilha fatalmente seria capturada. Foi então que Mendes Jr. foi surpreendido com uma coronhada na cabeça que foi desferida pelas costas e o deixou inconsciente, foi morto pelas coronhadas seguintes. Não foi morto à tiros para não chamar a atenção das tropas perseguidoras. Segundo Jacob Gorender (2014), isso tratou-se de uma situação-limite de duríssima necessidade. Se o tenente fosse solto ele fatalmente daria aos militares informações sobre a composição do grupo, suas armas, munições e possíveis rotas de deslocamento. A guerrilha estaria condenada à aniquilação.

Outra execução foi a de “Otavinho do CCC”. Otávio Gonçalves Moreira Júnior foi membro do CCC, Comando de Caça aos Comunistas, quando era estudante de Direito. Mais tarde ligou-se por conta própria à OBAN (Organização Bandeirantes) onde ganhou destaque pela perseguição implacável às organizações de Esquerda. O caçador virou caça: no dia 25 de fevereiro de 1973, foi metralhado.

No dia 21 de fevereiro de 1973 um grupo de fogo da ALN matou o português Manuel Henrique de Oliveira, dono de um restaurante em que no ano anterior, um grupo de quatro guerrilheiros foi fuzilado na porta. A ALN concluiu que Manuel havia ligado para o DOI\CODI por ter reconhecido Ana Maria Nacinovic num cartaz de Terroristas Procurados. Em 1987, o coronel Brilhante Ustra disse que o cerco aos quatro guerrilheiros foi feito através de uma operação de infiltração e acompanhamento e que o português foi assassinado pela ALN, sem culpa. Segundo o historiador Jacob Gorender o coronel é suspeito por negar que tenha sido um torturador apesar da montanha de evidências sobre a sua responsabilidade na tortura de prisioneiros no DOI\CODI de São Paulo. Por tanto a dúvida sobre Manuel ter sido ou não um delator, permanece.

Uma das ações mais marcantes da guerrilha urbana foi o assassinato do empresário dinamarquês Hennig Boilessen. Em 1971 os órgãos de repressão desarticularam e colocaram fora de ação a organização de esquerda, o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). O grupo era pequeno e atuava apenas na Grande São Paulo, mas foi descoberto graças à prisão Valdemar Andreu pelo DEOPS. Valdemar já havia se afastado do MRT, mas era conhecido do dirigente da Ala Vermelha, Edgar Almeida Martins, que o delatou. Em 5 de abril a equipe de Fleury estourou o aparelho e matou o chefe Devanir.         Como vingança um comando conjunto do MRT e da ALN “justiçou” no dia 15 de abril o empresário dinamarquês que era um ativo colaborador do DOI\CODI. No dia seguinte Joaquim Alencar de Seixas (Roque) era preso e assassinado sob torturas no DOI\CODI na rua Tutóia. Dois dias depois e Dimas Antônio Casimiro, do MRT, também foi morto em troca de tiros com policiais.

Um dos episódios mais trágicos da história da luta armada no Brasil foi o injusto “justiçamento” do guerrilheiro da ALN. Márcio Leite de Toledo foi assassinado na tarde do dia 23 de março de 1971 pelos seus próprios companheiros que desconfiavam que ele poderia estar trabalhando para os órgãos de repressão da ditadura militar.

       O comandante Carlos Eugênio conta que a ALN começou a desconfiar de Toledo devido às suas vacilações durante as ações armadas:

 

UM GRUPO-DE-FOGO sai para roubar um carro, a ação é bem-sucedida, vão trocar as placas num terreno baldio no Alto da Lapa. A entrada é numa rua de terra, estreita e fácil de guardar, um combatente, apenas, assegura rota de fuga para todos. Mário [Márcio Leite de Toledo] treinou em Cuba, atira bem, é escalado na metralhadora, os companheiros se entretêm na tarefa, seguros, não percebem a chegada dos tiras, o alarme não foi dado, a arma não disparou. Perdem o carro, escapam ilesos graças à disposição para o combate, Mário sai correndo sem atirar, abandonando-os à própria sorte.

— Vacilou pela segunda vez, não pode haver uma terceira, está fora de ação, vamos pensar o que fazer, talvez seja melhor que saia do país, assim terá condições de escolher o melhor para seu futuro.

— Eu não vacilei, foi uma escolha, era melhor não combater...

— Não se defenda, o combinado era atirar nos tiras, retendo-os, e correr para os carros, nos quais os companheiros, alertados pelos disparos, estariam prontos para dar cobertura até que entrasse e pudessem fugir. Arriscou a vida dos três, vai ficar afastado, sob o controle de Célio [José Milton Barbosa], terá tempo para pensar, fazer sua autocrítica e decidir se prefere uma reintegração progressiva ou a partida para o exterior. (PAZ, 2018, pp. 184-185)

 

Reuniões feitas no fusca enquanto percorriam as ruas da cidade de São Paulo, desviando das veraneios da Operação Bandeirantes. Carlos Eugênio expõe ao grupo o problema de Toledo, numa dessas reuniões estava Tato [Paulo de Tarso Celestino] e Altino [Iuri Xavier Pereira], a partir dali decidiram pelo seu fim trágico.

 

— Célio informou que Mário quer se desligar da Organização, nos acusa de isolá-lo por motivos políticos, diz que não reconhece o vacilo, não tem motivos para sair do país e vai procurar uma organização que o queira. Urge tomar uma decisão a respeito, o companheiro conhece esquemas, pode nos prejudicar seriamente, fugiu quando Diogo [João Câmara ferreira] caiu e repetiu a dose em ação. Para se desligar, deve aceitar nossas exigências e viajar, é a maneira correta. Ele nega, mas sabemos que está abalado pelas dificuldades da luta, que é bem diferente de um treinamento em Cuba. Caindo com o estado de ânimo que apresenta e sem controle direto nosso, seria uma catástrofe. (PAZ, 2018, p. 186)

 

Carlos Eugênio exigiu que Toledo deixasse o país, tinha medo que ele pudesse cair nas mãos dos orgãos de repressão, ou que já fosse um traidor e entregasse os esquemas que iria levar os militares aos guerrilheiros. A ALN havia perdido muitos militantes devido à traição. Isso pesou em sua decisão. A terrível execução contra o militante da ALN, ocorreu após alguns meses da traição de José da Silva Tavares, que levou à prisão, tortura e ao assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, sucessor de Carlos Marighella.

Numa outra reunião, agora com com Célio, Hermes [Antônio Sérgio de Matos] e Marcela [Ana Maria Nacionovic], componentes Coordenação de São Paulo, Carlos Eugênio transmite a decisão fatal:

 

— Vamos executar Mário... ele é um perigo para a Organização, está vacilando e não admite sair do país, escondendo suas fraquezas atrás de supostas divergências políticas. Preferimos assumir essa responsabilidade a correr o risco de vermos mais companheiros caindo e morrendo porque não fomos rígidos em nossa atuação, não levamos em conta as leis da guerra. Ë uma ação de sobrevivência, não nos trará glórias, nem conseguiremos jamais saber se foi ou não acertada, simplesmente os tempos exigem… (PAZ, 2018, p. 187)

 

Hermes e Marcela apoiaram a execução, Célio concordou, passou o ponto à Mário e pede para não participar. Os componentes fizeram pacto de silêncio. Assim o ato mais polêmico da ALN foi cometido. Em seu livro Carlos Eugênio Paz demonstra a dor amarga do arrependimento que ele carregará por toda a sua vida:

 

Foi terrível.., hoje não me interessa se tínhamos ou não razão, quero falar, contar... ajudara que nunca mais um agrupamento de seres humanos tenha direito a tal escolha... já posso me encarar, não importa que outros não assumam comigo, prometi a Felipe [Alex de Paula Xavier Pereira] prestar contas à História... Mário não pode passar por traidor, e os companheiros que tomaram a decisão e executaram a sentença não podem ser conhecidos como frios assassinos políticos que matavam para tomar o poder na Organização. Nossa luta não será relegada a uma aventura inconseqüente que chegou a extremos em conseqüência de esse ou aquele companheiro que fraquejou ou tomou a decisão errada. (Carlos Eugênio Paz, 2018, pp. 187)

 

No site pró-militar Terrorismo Nunca Mais há um relato detalhado de como ocorreu a execução:

No final da tarde, procedendo às costumeiras evasivas, [Márcio Leite de Toledo] circulava pelas ruas do Jardim Europa, aristocrático bairro paulistano. Na altura do número 405 da Rua Caçapava, aproximou-se um Volkswagen grená, com dois ocupantes, que dispararam mais de 10 tiros de revólver .38 e pistola 9 mm. Um Gálaxie, com 3 elementos, dava cobertura à ação. Apesar da reação do jovem, que chegou a descarregar sua arma, foi atingido por 8 disparos. Morto na calçada, seus olhos abertos pareciam traduzir a surpresa de ter reconhecido seus assassinos. Da ação fizeram parte seus companheiros da direção nacional Yuri Xavier Pereira (“Joaozão”), Ana Maria Nacinovic Correia (“Marcela”, “Betty”, “Beth”) e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz (“Clemente”, “Diogo”, “Quelê”, “Guilherme”), este último o autor dos disparos fatais.

Ao lado do corpo, foram jogados panfletos, nos quais a ALN assumia a autoria do “justiçamento”, do qual também participaram, na cobertura, Antônio Sérgio de Matos (“Hermes, “Uns e Outros”), Paulo de Tarso Celestino da Silva (“Cesar”) e José Milton Barbosa. (Dumont, http://www.ternuma.com.br/)

 

Márcio Leite de Toledo foi enterrado em Bauru, seu irmão mais velho declarou que ele foi morto pelos próprios companheiros comunistas.

 

Ocupação da Rádio Nacional e Propaganda Armada

 

O mini-manual do guerrilheiro urbano define ocupação como

 

(...) um tipo de ataque realizado quando um guerrilheiro urbano se estaciona em estabelecimentos e localizações específicas, para uma resistência temporal contra o inimigo ou para algum propósito de propaganda. ” (Marighella, 1969)

 

O manual também explica que o motivo da ocupação de fábricas e escolas durante greves é um método para distrair o inimigo. A ocupação de estações de rádio é para propaganda. A ocupação tem de ter um limite de tempo. Quanto mais rápido se realizar, melhor.

Uma das ocupações mais importantes realizadas pela ALN foi a ocupação da Rádio Nacional. Às 8h30 de 15 de agosto de 1969. Um grupo de 12 guerrilheiros invadiram a estação transmissora da rádio em Piraporinha, na Grande São Paulo. Após dominar os funcionários, um dos invasores cortou a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. A gravação anunciou o nome de Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele.

No começo da locução uma voz feminina anuncia que as gravações em fita das transmissões em fita da Rádio Libertadora, podem ser ligadas aos sistemas de alto-falantes dos bairros e subúrbios e irradiadas para o povo, mesmo que para isto tenham que empregar a mão armada, os meios de lutar e os princípios e objetivos da guerrilha no Brasil e da luta pela libertação contra o imperialismo.

Assim Marighella tentava romper a propaganda do regime:

 

A polícia nos acusa de terroristas e assaltantes, mas, não somos outra coisa que não revolucionários que lutam a mão-armada contra a atual ditadura militar brasileira e o imperialismo norte-americano. (Marighella, 1969)

 

 

Marighella listava os principais objetivos dos revolucionários:

●🕭📂   Derrubar a ditadura militar;

●🕭📂   Anular todos os seus atos desde 1964;

●🕭📂   Formar um governo revolucionário do povo;

●🕭📂   Expulsar do país os norte-americanas, expropriar firmas, bens e propriedades deles e de quem com eles colaboram;

●🕭📂   Expropriar os latifundiários;

●🕭📂   Acabar com o latifúndio;

●🕭📂   Transformar e melhorar as condições de vida dos operários, dos camponeses e das classes médias;

●🕭📂   Extinguir, ao mesmo tempo e definitivamente, a política de aumento dos impostos, dos preços e aluguéis;

●🕭📂   Acabar com a censura;

●🕭📂   Instituir a liberdade de imprensa, de crítica e de organização;

●🕭📂   Retirar o Brasil da condição de satélite da política externa dos Estados Unidos e colocá-lo no plano mundial como uma nação independente;

●🕭📂   Reatar ao mesmo tempo relações diplomáticas com Cuba e todos os demais países socialistas; (Marighella, 1969)

 

Ele afirma que a guerrilha não recebia armas nem dinheiro de países estrangeiros. As armas eram obtidas no Brasil. Capturadas dos quartéis e da polícia ou por meio de deserções: “aquelas [armas] libertas das forças armadas da ditadura como fizeram o capitão Lamarca e os valorosos sargentos, cabos e soldados que o acompanharam na retirada do quartel de Quitaúna.” (Marighella, 1969)

Quanto aos recursos financeiros, Marighella explicou que é público e notório que os revolucionários assaltavam os bancos.

Segundo Marighella os banqueiros não poderiam se queixar devido aos seus exorbitantes lucros, enquanto o bancário recebia salário mínimo e precisaria trabalhar 25 anos para receber o dobro desse miserável salário. Marighella dizia que o mesmo ocorria com o governo que tinha no poder um político corrupto com Andreazza que tinha apartamento com o valor de um bilhão de cruzeiros velhos, além de receber comissões das firmas estrangeiras.

Marighella justifica os atentados pessoais e assassinatos:

 

A ditadura nos acusa de atentados pessoais e assassinatos, mas não confessa que matou Edson Souto, Marco Antônio Brás de Carvalho, "Escoteiro" - Nélson José de Almeida, o sargento João Lucas Alves e tantos outros patriotas. E não confessa que submete os presos aos suplícios do pau-de-arara, dos choques elétricos e outros que deixariam os nazistas envergonhados.

Os meios que a ditadura militar brasileira emprega para combater e reprimir o povo, são meios bárbaros e indignos, destinados a defender os interesses próprios dos militares no poder, os interesses dos grandes capitalistas, dos latifundiários e do imperialismo dos Estados Unidos. Ao contrário, os meios que os revolucionários estão utilizando para o combate à ditadura militar, são legítimos e inspirados por sentimentos patrióticos. (Marighella, 1969)

Segundo Marighella, nenhum homem honrado deveria aceitar o regime imposto pelos militares e que a ditadura, ainda que a contragosto, já chorava seus mortos e tinha que admitir a existência de uma “guerra revolucionária” contra o regime.

 Desde o início de sua atuação até agora, os grupos armados expropriaram os banqueiros nacionais e estrangeiros e as firmas seguradoras do capital (...) conturbando a rede bancária brasileira. E expropriaram os grandes comerciantes, as firmas imperialistas, o governo federal e os governos estaduais. (Marighella, 1969)

 Marighella citava como operações heroicas as ações armadas como a libertação do sargento Antônio Pires e outros companheiros da guerrilha presos na penitenciária Lemos de Brito e o assassinato do capitão norte-americano Charles Chandler que “veio da guerra do Vietnam para fazer espionagem da CIA no Brasil, é outra prova de que os grupos revolucionários armados estão atentos na defesa da nossa soberania e na preservação dos interesses nacionais. ” (Marighella, 1969)

Marighella afirmava que as manifestações dos estudantes contra Rockfeller no Rio, São Paulo, e Brasília era testemunha de como os americanos eram repudiados no Brasil e só contavam com o apoio da ditadura militar. A guerra revolucionária deveria ser, portanto, uma guerra prolongada com a participação de todos contra a ditadura militar que funcionava como uma agência dos Estados Unidos no Brasil. A guerra revolucionária brasileira seria a continuação da luta de Che Guevara, seria uma luta profunda que visava a transformação de nossa sociedade.

Carlos Marighella explicaou que a luta pela libertação nacional “não teria pressa nem prazos”, não era uma quartelada, um golpe militar ou uma farsa para substituir um grupo de homens por outros deixando intacta a estrutura de classes da sociedade. Para o guerrilheiro urbano as ações fragmentadas e imprevisíveis deveriam deixar o governo confuso e desmoralizado nas cidades, até que se formasse a guerrilha rural:

 Eis por que, todos os grupos armados revolucionários que estão lutando, devem prosseguir com a guerrilha urbana como temos feito sistematicamente até aqui, assaltando bancos, atacando quartéis, expropriando, intensificando o terrorismo de esquerda, justiçando, sequestrando, praticando em larga escala sabotagem para tornar desastrosas as circunstâncias em que o governo tem de agir. Devemos atacar por todos os lados com muitos grupos armados diferentes de pequenos efetivos, compartimentá-los uns dos outros e mesmo sem elos de ligação, a fim de dispersar as forças do governo na perseguição; devemos aumentar gradativamente os distúrbios da guerrilha urbana numa sequência interminável de ações imprevisíveis, e de tal modo, que as tropas do governo não possam deixar a área urbana sem risco de desguarnecer as cidades. São essas circunstâncias desastrosas para a ditadura militar que permitem aos revolucionários desencadear a guerrilha rural em meio a um incremento incontrolável da rebelião urbana. (Marighella, 1969)

 Nesse trecho Marighella explica uma das principais estratégias da luta armada no Brasil: desencadear a guerrilha urbana para financiar a guerrilha rural; desencadear a guerrilha no campo; aumentar as rebeliões urbanas, impedindo que o governo pudesse enviar muitas tropas para o campo por medo de desguarnecer as cidades. Assim as tropas da ditadura além de lutarem na área rural, longe do local que estava habituado que eram os grandes centros urbanos, ainda teriam que lidar com insurreições urbanas na retaguarda que tentariam impedir, atrasar e\ou sabotar as linhas de suprimentos dos militares que iriam em direção à área rural do país.

O objetivo a atingir na segunda fase da luta revolucionária, que seria a guerrilha rural, seria tomar o campo, eliminar o latifúndio e expropriar os latifundiários, “justiçar” grilheiros e norte-americanos envolvidos com grilheiros nas compras de terras no Brasil:

 (...) levar ao fundo do país a mesma inquietação e o mesmo terror que já dominam os militares, os imperialistas e as classes dominantes nas cidades. Eis aí o objetivo a atingir na segunda fase da guerra revolucionária.

Sem abandonar a guerrilha urbana, os grupos revolucionários armados devem com sua habilidade heroica ajudar o desencadeamento da guerrilha rural; nossos esforços devem convergir para a construção e o reforçamento da aliança armada dos operários e camponeses e sua coligação com os estudantes, os intelectuais, os eclesiásticos e a mulher brasileira. Essa aliança é o grande pedestal da luta no campo e da guerrilha rural, de onde surgirá o Exército Revolucionário de Libertação do Povo. (Marighella, 1969)

 Marighella também deu sua versão sobre as baixas nas fileiras da ALN propagadas pelos meios de comunicação à serviço da ditadura militar:

 As prisões anunciadas pela polícia em São Paulo, Guanabara e Minas, não afetaram nossa Organização: a Ação Libertadora Nacional.

A polícia informou que os presos pertencem a vários grupos revolucionários e não os identificou com a Ação Libertadora Nacional. O noticiário da polícia não merece o menor crédito, mas, de qualquer maneira, devemos assegurar que a Ação Libertadora Nacional, até o momento, praticamente, [está] intacta. Isto não quer dizer que não tenhamos sofrido perdas. É impossível a uma organização revolucionária em plena atividade, não sofrer prejuízos e quedas. O fundamental, porém, é que a espinha dorsal da Ação Libertadora Nacional não foi atingida. (Marighella, 1969)

 Carlos Marighella explicou também que tal fato se devia à estratégia utilizada pela Ação Libertadora Nacional que era a de estratégia global de lutas e não de um foco guerrilheiro, pois o foco guerrilheiro, quando descoberto, significa a derrota. A estratégia global era a montagem da estrutura guerrilheira por todo o país e quanto a isso o inimigo nada poderia fazer.

Marighela explicava que a guerra revolucionária no Brasil teria 3 fases: a fase da guerrilha urbana, a fase da guerrilha rural e a fase da guerra de manobras onde surgiria o exército revolucionário. “A Ação Libertadora Nacional está pondo em prática o seu plano estratégico global e já atingiu a primeira fase da guerra revolucionária. Agora vamos passar à segunda fase.”
            O líder da ALN afirmava que a ditadura enfrentava em sua organização um inimigo decidido, porém tinham cautela e que só agiam quando estavam certos do êxito de suas ações. Atacavam e batiam em retirada.

 Reconhecemos que somos infinitamente mais fracos de que o inimigo, não temos exército ainda e só agimos com pequenos grupos armados. Nossos grupos armados são separados uns dos outros, muitas vezes não temos elos de ligação entre os grupos, a coordenação dos grupos só é feita por poucos elementos. Não juntamos, jamais, numa casa só, nem tudo que possuímos nem todas as pessoas. Tudo o que fazemos é na base da guerra de movimento. Em nossa organização nem todo mundo conhece todo mundo e nem todas as pessoas conhecem-se entre si. Cada um só sabe o que diz respeito ao seu trabalho.
            Quem não seguir esses princípios na Ação Libertadora Nacional está sujeito a ser apanhado pelo inimigo e a fracassar. Todo militante da Ação Libertadora Nacional é obrigado a ser vigilante e a não deixar pistas para a polícia, é obrigado a não denunciar os segredos da organização e a não denunciar os companheiros do seu próprio grupo sempre que acabar caindo na prisão. (Marighella, 1969)

 Segundo Marighella a ditadura exagerava o êxito das prisões que realizava e a imprensa fazia estardalhaço, citava como exemplo o que ocorreu com o MR-8 em Angra dos Reis, onde segundo ele, o exército, a marinha e a aeronáutica perderam tempo caçando uma guerrilha que não existia.

Marighella afirmou que aquele ano seria o ano da guerrilha rural que desencadearia um novo golpe na ditadura militar, no latifúndio e no imperialismo norte-americano e que nenhuma prisão acabaria com a guerra revolucionária no Brasil.

 

A polêmica sobre a utilização do terrorismo de Esquerda

 

A palavra “terrorismo” tem uma conotação negativa. Muitos ex-guerrilheiros rejeitam serem chamados de terroristas. Mas Carlos Marighella tentou dar um significado positivo à essa palavra. Logo na introdução de seu mini-manual ele afirma que:

 A acusação de "violência" ou "terrorismo" sem demora tem um significado negativo. Ele tem adquirido uma nova roupagem, uma nova cor. Ele não divide, ele não desacredita, pelo contrário, ele representa o centro da atração. Hoje, ser "violento" ou um "terrorista" é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades. (Carlos Marighella, 1969)

 Portanto, para o guerrilheiro urbano, ser violento era uma qualidade no enfrentamento às atrocidades do terrorismo de Estado da ditadura militar. No entanto, o manual define o terrorismo como uma ação com uso de explosivos:

 O terrorismo é uma ação, usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo. (Carlos Marighella, 1969)

 O manual deixava claro que os atos de terrorismo não deveriam ser usados contra alvos civis. Marighella acreditava que o terrorismo revolucionário era necessário para combater a ditadura militar. Até mesmo um coronel brasileiro reconheceu numa entrevista ao The New York Times que “a ALN não fazia a operação terrorista clássica para não perder o apoio das massas. ” (Magalhães, 2012, p. 505)

Luiz Carlos Prestes manteve posição contrária à luta armada durante a ditadura militar. Ele afirmou em um periódico patrocinado pela União Soviética que “o terrorismo era a sarna do revolucionário pequeno-burguês”, e que a guerrilha no Brasil era uma aventura com prejuízos para a revolução.

O mini-manual acrescenta que o terrorismo requer que a guerrilha urbana tenha conhecimento de explosivos. É uma ação que fora a aparente facilidade com que se possa realizar, deveria ser planejada e seu êxito dependia da determinação da organização revolucionária. Essa ação deveria ser executada com calma e sangue frio. Embora o terrorismo normalmente envolvesse explosões, havia casos em que poderia ser realizado incêndios sistemáticos em instalações, propriedades e depósitos norte-americanos.

A preocupação de Marighella em evitar a morte de civis em atos de sabotagem e terrorismo tinha grande importância pois a luta guerrilheira já havia executado um ato desastroso que repercutiu muito mal diante da opinião pública. Em 1969 a AP (Ação Popular) executou um atentado terrorista cujo alvo deveria ser o general Costa e Silva no Recife. Por conta própria, o dirigente nacional da AP, Alípio de Freitas, decidiu pôr em prática o que havia aprendido no curso de armas e explosivos da comissão militar da AP.

O general Costa e Silva era aguardado às 8h45 do dia 25 de julho no aeroporto dos Guararapes. Havia muitas pessoas esperando no saguão quando ocorreu a explosão. Morreram o almirante Nélson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Régis de Carvalho. Outras 14 pessoas ficaram feridas e mutiladas. Mas Costa e Silva nada sofreu, pois, seu avião teve uma pane e o general viajou de automóvel de João Pessoa ao Recife. Além de Alípio de Freitas, o guerrilheiro Raimundo Gonçalves Figueiredo, que depois se transferiu para a VAR-Palmares, também teve participação no atentado. Ele morreu em 27 de abril de 1971 num tiroteio com policiais no Recife. A direção nacional da AP ficou chocada, condenou o ato e dissolveu os comandos armados paralelos.

A POLOP - Política Operária (futura VPR) com Onofre Pinto na Coordenação Geral entrou na carreira de ações expropriatórias. Após o roubo de grande quantidade de dinamite da Pedreira Cajamar, um comando invadiu em 22 de junho de 1968 o Hospital Militar no Cambuci. O comando do qual faziam parte Pedro Lobo de Oliveria, Otacílio Pereira da Silva e José Ronaldo Tavares saiu do hospital com 11 FAL, (Fuzil Automático Leve) armamento de fabricação belga. O general Carvalho Lisboa lançou um desafio aos revolucionários através da imprensa. Desafiou-os a sair da clandestinidade e atacar seu quartel. A organização aceitou o desafio. No dia 26 de março um grupo de guerrilheiros colocou um automóvel sem piloto em movimento rumo ao edifício de alojamento dos oficiais do Quartel-general do II Exército. O carro não seguiu a rota prevista e se chocou num poste, perdeu a velocidade e explodiu antes do alojamento dos oficiais. O sentinela Mário Kozell Filho foi atrás do carro achando se tratar de uma acidente e teve seu corpo estraçalhado na explosão. Apesar de ter matado apenas um soldado, a Organização julgou que a ação teve êxito por ter conseguido desmoralizar o general Lisboa.

 

Conclusão

 

No plano revolucionário de Carlos Marighella, a guerrilha urbana seria usada como tática para arrecadar fundos para a preparação e o lançamento da guerrilha rural que teria a função estratégia para tomar o poder e formar o governo revolucionário dos trabalhadores, operários e camponeses. No entanto, nenhum grupo guerrilheiro conseguiu executar o lançamento da guerrilha rural que foi anunciada pela ALN em 1969 durante a tomada da Rádio Nacional. O PCdoB lançou a guerrilha do Araguaia, porém, este partido não usou a guerrilha urbana como tática. Exatamente por isso preservou seus quadros e conseguiu manter em segredo a preparação para a guerrilha rural, até que fosse descoberta e destruída pelos militares.

Os métodos violentos desenvolvidos pelos grupos revolucionários provocaram a perda de apoio popular pois o regime militar tinha todo o aparato de propaganda oficial para difundir os crimes, verdadeiros ou não, provocados nas ações revolucionárias, além de narrar a sua versão dos fatos, enquanto negava absolutamente que houvesse tortura.

Uma acusação muito comum contra a guerrilha brasileira é que ela teria obrigado a ditadura a fechar mais ainda o regime. Não concordo com esta afirmação, pois apesar da ditadura ter aperfeiçoado seus aparatos repressivos e restringido ainda mais as liberdades individuais, ela não fez com intuito somente de perseguir a guerrilha pois o clima de medo e insegurança passou a ser estimulado pela própria ditadura quando começou a criar grupos paramilitares de extrema-direita, bandos de provocadores chefiados pelo alto escalão do governo militar.

Os militares usaram a guerrilha como justificativa para fechar ainda mais o regime político. Em São Paulo, um bando de sargentos e soldados liderados por Aladino Feliz, vulgo Sábado Dinotos, executou 12 explosões a bombas e um assalto a banco. Em São Paulo e no Rio de Janeiro o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, atacava teatros, livrarias e agredia artistas. Portanto, para a “linha-dura da” da ditadura o clima de medo era favorável para alcançar seus fins políticos.

Outro fator responsável pelo fracasso da luta armada foi o fato do movimento guerrilheiro ter começado num período de fechamento do regime político, o que dificulta ações armadas e principalmente a manutenção do trabalho com as massas.

            É mais difícil fazer uma guerrilha durante a ditadura. Não há nada que impeça que uma guerrilha comunista seja realizada durante o período democrático, como foi feito na Argentina antes do golpe militar.

Após o aperfeiçoamento dos mecanismos de repressão, as ações armadas passaram a ter um custo financeiro e humano muito alto. As ações armadas traziam dinheiro, porém, à medida que cada vez mais os guerrilheiros eram conhecidos pelos órgãos de repressão, ficava mais difícil se manter fora da clandestinidade. Era necessário alugar mais residências para usar como “aparelhos”. Além disso, as quedas em cascata provocadas pela delação de militantes que não resistiam às torturas, levaram para as organizações de Esquerda o clima de paranoia e desespero. A guerrilha perdeu o fator surpresa que tinha no início da “guerra revolucionária”, a ditadura aperfeiçoou os órgãos de repressão, recebendo treinamento dos Estados Unidos e aperfeiçoou métodos já utilizados, como o pau-de-arara.

Além disso, a economia durante o regime ditatorial voltou a “crescer” na década de 1970, mesmo que este crescimento era ilusório, e abastado a partir de um capitalismo estatal que mantinha a renda do topo da pirâmide intocável ao restante da população e do proletário, o governo soube com eficiência propagandear o crescimento econômico através dos meios de comunicação oficial como consequências da eficiência do regime: o chamado “Milagre Econômico”. Apesar do arrocho salarial e da inflação. O crescimento do emprego e do consumo geraram clima de euforia nas massas, afastando-as do descontentamento que provocaria a revolta social urbana e rural, imaginada por Carlos Marighella.

 

REFERÊNCIAS

 

Documentos mimeografados da ALN e de Carlos Marighella - A Crise Brasileira; Algumas Questões Sobre a Guerrilha no Brasil; Chamamento ao Povo Brasileiro; Mini-manual do Guerrilheiro Urbano; Gravações em Fita da Rádio Libertadora. Arquivo Marxista na Internet. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marighella/index.htm> Acesso em 22 de julho de 2016.

BERQUÓ, Alberto. O sequestro dia a dia. A verdadeira história do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

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